COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (6)

Entrevista Motivacional com Famílias

Um pequeno, mas um crescente número de publicações evidenciam a aplicabilidade da Entrevista Motivacional com famílias que enfrentam o uso de substâncias psicoativas. A Entrevista Motivacional maximiza a possibilidade de engajamento familiar no tratamento, mediante a sensibilidade do profissional ao contexto de desenvolvimento familiar que inclui as respostas dos membros as demandas do ciclo de vida familiar, bem como comportamento de risco e fatores estressores que podem estar presentes. Neste contexto é necessário considerar, quem percebe a situação, quem fala, quem ouve e em que ordem isso é realizado, pois ao trabalhar com a família , o profissional deve estar atento a todo funcionamento grupal, bem como a participação de todos os membros no tratamento, tanto nas sessões , quanto fora delas.

O processo de mudança requer engajamento familiar, sendo a queixa algo que todos os membros da família necessitam abordar.

A fundamentação da Entrevista Motivacional é pautada na utilização de habilidades de aconselhamento empáticas, centradas na família  com o objetivo de aumentar a motivação para  explorar e resolver ambivalência, enfatizando a importância da escuta qualificada para o engajamento familiar na intervenção de modo a ajudar a família a explorar e, esperançosamente, resolver sua ambivalência.

 

Neste sentido, os autores da Entrevista Motivacional chamam à atenção para que os profissionais tomem cuidado e não se deixem influenciar por uma conduta na qual intitulam “reflexo de endiretamento”, que seria o desejo do profissional de tentar corrigir no outro aquilo que lhe parece errado, modificando o curso das ações a partir de suas próprias perspectivas ou do local de trabalho.

A Entrevista Motivacional parte do pressuposto de que quem tem a verdade ou as respostas para os questionamentos é a própria família; cabe ao profissional evocar estas informações e empoderar o grupo familiar quanto a este saber.

 

Maiores informações:

Figlie, NB. Entrevista Motivacional com Famílias. In: Payá, R. e col. Intervenções Familiares para abuso e dependência de álcool e outras drogas. Rio de janeiro: RJ: Gen, 2017 pp 87 – 101. ISBN 978-85-277-3048-8.

 

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (4)

Entrevista Motivacional como alternativa para trabalhar a Nutrição Comportamental

Na maioria das vezes a pessoa que procura um tratamento com um nutricionista traz a crença de que previamente não vai conseguir seguir as recomendações ou que já sabe tudo que será dito.

A entrevista motivacional (EM) é um estilo de aconselhamento utilizado  em diversas áreas da saúde, social, educação e judiciária que almeja promoção de  mudanças comportamentais. Por meio de uma conversa colaborativa, que envolve parceria, aceitação, compaixão o profissional evoca as motivações intrínsecas do cliente que o levam a manter uma alimentação desregrada, por exemplo.

O profissional deve encorajar e conduzir o trabalho de modo que a pessoa inicialmente se engaje no tratamento e para tal, essa deve estabelecer um foco claro com relação a mudança que almeja realizar, para posteriormente o profissional trabalhar a evocação de seus valores, motivos, desejos e habilidades para a realização da mudança. Por fim, profissional e cliente realizam juntos o planejamento da intervenção focado na mudança de comportamento possível e viável para a pessoa diante das condições do seu momento presente.  Ou seja, em um atendimento nutricional pautado na ETM, dificilmente o cliente sairá com uma dieta prescrita na primeira sessão.

  • Solicitar ao cliente que descreva os extremos de suas preocupações, que imagine as piores consequências de seu comportamento atual.
  • Diante do exposto acima, ajudar o cliente a visualizar um futuro modificado: “Se você decidir fazer uma mudança nutricional , quais seriam suas expectativas para o futuro?”.
  • Solicitar ao cliente que se recorde de uma época anterior ao problema ter surgido e que a compare com sua situação presente. O objetivo aqui é prospectar as habilidades que a pessoa tem.
  • Convidar o cliente a ver a  si mesmo e perguntar:

Quando você olha para você, o que vê?

Se você estivesse dando um conselho a si mesmo agora, o que falaria?

O que podemos fazer nesse momento de sua vida então?

Estes são alguns exemplos utilizados na EM que procuram trabalhar a ambivalência e a motivação para a mudança.

 

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (2)

O papel da Ambivalência na Entrevista Motivacional

No geral, as pessoas se sentem ambivalentes em relação à mudança, porque, de certa forma, existem desvantagens em mudar frente ao desconhecido – por mais que a opção seja em nome da saúde. Um sinal claro de ambivalência é o MAS no meio da frase. Exemplo:  Preciso parar de fazer o esquenta com os meus amigos, mas  esse é o momento mais divertido. A ambivalência faz com que as pessoas se percam em seus objetivos e costuma ser experimentada da seguinte maneira: a pessoa pensa inicialmente em uma razão para mudar, depois pensa em uma razão para não mudar e, por fim, parar de pensar a respeito.

 

Quando o profissional adota um estilo confrontativo com a pessoa ambivalente, acaba por adotar um lado da ambivalência. Nessa situação, uma resposta comum é a argumentação do cliente. Na ETM a meta é evocar a conversa sobre a mudança em vez de evocar a resistência na mudança. É indicado que o profissional ouça os argumentos em favor da transformação, pois quando o profissional defende a mudança e o cliente defende seus argumentos, a conversa tende a fracassar.

 

A ambivalência é um estado mental no qual a pessoa tem sentimentos coexistentes e conflitantes a respeito de alguma coisa. Uma postura de vulnerabilidade pode transformar-se em desafio e voltar à vulnerabilidade em poucos minutos.

 

Como esse conflito se desenvolve? Um ingrediente importante é o apego ao comportamento, o que torna mais difícil resistir ou afastar-se dele. A dependência psicofarmacológica é uma forma de apego: o corpo da pessoa adapta-se à presença da substância (tolerância) e, quando esta é retirada, o corpo entra em um estado de desadaptação (abstinência). Os padrões de aprendizagem ou condicionamento também podem ser fontes muito poderosas de apego a certos comportamentos: a descontração e o convívio nas baladas passam a estar associadas ao uso de ál­cool, assim como uma tragada no cigarro após as refeições. Os comportamentos relacionados com o uso de substâncias também podem ser utilizados como meio de enfrentamento : a pessoa passa a contar com a substância para ajudá-la a lidar com estados difíceis ou desagradáveis (a se aproximar ou falar com pessoas, a relaxar em um momento de raiva, a sentir coragem etc.) e, com o tempo, torna-se mais difícil enfrentar tais situações sem o uso da substância.

Um profissional que escuta uma manifestação comum de ambivalência do tipo “eu quero, mas não quero” poderia pressupor a existência de algo errado com o julgamento ou com o estado mental do cliente. Sua incerteza poderia ser vista como anormal, inaceitável e como sinal de pouca motivação. O conceito de motivação atualmente é compreendido como um estado de prontidão que pode oscilar com o tempo e como fruto de interação interpessoal. Na ETM, o estilo do profissional em sua relação com o cliente é fundamental para aumentar a motivação para a mudança.

 

Em vez de visualizar a ambivalência como um “mau sinal”, é necessário entendê-la como normal, aceitável e compreensível. Exemplo: “ Sei que bebi demais, mas não conte aos meus pais porque eles não vão entender”. Uma escuta reflexiva seria : “Estou entendendo que você percebe que exagerou e por isso teme a reação dos seus pais” .

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (1)

Como suscitar a Fala de Mudança?

As pessoas inicialmente falam sobre o que querem fazer (desejo), por que mudariam (razões), como fariam (capacidade) e o quão importante é (necessidade). Em seguida, vem o comprometimento que – se fortalecido – aumenta gradualmente em direção à mudança. Para tal, torna-se relevante prospectar os valores, aspirações e esperanças do cliente, de modo a culminar nos passos para a mudança do comportamento.

 

Para tanto, é imprescindível ouvir o cliente, pois ele é o maior especialista em sua própria vida. É esperado na ETM que o profissional fale cerca de 25 a 30% do tempo. O restante cabe ao cliente.  Para facilitar a compreensão do leitor, existem seis tipos de conversa sobre mudança: Desejo, Capacidade, Razões, Necessidade, Comprometimento, Ação.

Estes tipos de conversa são sequenciais e conforme a motivação para a mudança aumenta, a conversa vai se transformando progressivamente. No entanto, vale destacar que podem ocorrer oscilações. Exemplo: uma pessoa fala sobre suas razões para mudar, mas diante de uma colocação confrontativa por parte do profissional ou alguma variável externa, a pessoa volta a falar sobre seu desejo. Nesta situação, a meta do profissional é sempre atuar em prol de atingir a fala seguinte e não simplesmente do desejo ir para o comprometimento ou ação.

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL

Estilo de Comunicação na Entrevista Motivacional

Muitas vezes, um atendimento mais se parece com um ringue de luta, onde o cliente defende o status quo e o profissional está persuadindo-o de que existe um ‘problema’ e  de que alguma mudança ‘precisa’ ser feita. Ao final da conversa, fica a sensação de que houve um embate no qual ambos sentem ter perdido a ‘batalha’. Uma das características mais marcantes da ETM é o profissional perceber,  que  seu contato com o cliente se deu de forma tranquila e pouco conflituosa. Uma analogia bastante comum à ETM é a dança. Faz parte da tarefa do profissional conduzir gentilmente seu cliente em direção à mudança. Como acontece numa dança, apesar dessa ter um responsável por conduzir os passos, o casal precisa fluir em concordância e sintonia para que a atividade seja desfrutada ao máximo.

O estilo de comunicação diz respeito à postura e abordagem utilizada pelo profissional para ajudar as pessoas. Cada um dos três estilos de comunicação propostos aqui reflete posturas diferentes sobre o papel do profissional no seu relacionamento com o cliente. Assim, cada um deles deve ser analisado e utilizado durante o processo de mudança nas situações e momentos distintos que surgirão(5):

  1. Acompanhar: Dar atenção total ao que o cliente está falando. Consiste predominantemente em escutar de forma atenta, sem julgar ou criticar. O objetivo é entender a experiência e os valores do outro, ou seja, entender o que está acontecendo pelos olhos do cliente. Exemplo: “Eu não vou falar para você parar de beber. Primeiro, eu gostaria de entender melhor o por que você está precisando beber.”
  2. Direcionar: Este estilo de comunicação evidencia o relacionamento interpessoal. Em momentos específicos, um direcionamento por parte do profissional se faz vital. Existem situações em que a pessoa deverá ser encorajada a confiar no conhecimento e experiência do profissional para que a conversa seja viável e segura. Por exemplo: um aluno que chegou na escola alcoolizado, deverá receber os primeiros cuidados e ter a segurança de que os pais serão chamados a escola, mas que essa conversa será intermediada pelo profissional e não será apenas um aviso para que os pais venham busca-lo na escola porque encontra-se alcoolizado. O uso de substâncias é uma consequência de algo que não está bem na vida daquele jovem e não causa.
  3. Orientar: Ajudar a pessoa a encontrar um caminho de acordo com a mudança que ele deseja fazer no momento, oferecendo um menu de opções que possam’’ auxiliá-lo no processo de transformação. Exemplo: “Eu posso ajudá-lo ao relatar quais os recursos que geralmente as pessoas utilizam para lidar com os momentos de fissura, assim você poderá testá-los e escolher aqueles que forem mais úteis para você”.
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O que é Deep Web e Dark Net?

Deep web é uma parte da Internet que não é indexada pelos motores de busca, o que significa que se você quiser acessar esses sites, você deve ir diretamente a eles em vez de pesquisar. A deep web enorme, precisamente porque o conteúdo da Internet é muito grande para os motores de busca cobrirem tudo, e embora este conteúdo seja, de alguma forma, “secreto” nem sempre é totalmente ruim. Por exemplo, existem sites que servem para denunciar casos de violência doméstica, opressão do governo, queixas anônimas e privadas, etc. Ela também é usada ​​pelos governos para operações secretas da justiça, empresas e grandes corporações.

darknet é uma parte não indexada e restrita da deep web. Para acessar, é necessário um software e autenticação. Esta parte da web é realmente mais escondida e possui um enorme mercado ilegal: pornografia infantil, serviços de hackers, assassinos, tortura, jogos de azar e drogas, sendo este último o tema mais prolífico.

O termo darknet é muitas vezes confundido como sinônimo da deep web. A verdade é que estes nomes devem ser usados para coisas diferentes, dado que a darknet é apenas uma pequena parte da deep web, onde tudo é anônimo e está sempre criptografado, você não pode entrar com os navegadores normais. Alguns chamam onionland ou “a terra das cebolas”, pois os sites têm um domínio que termina em .onion.

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (3)

Metanálise com evidências de 25 anos de estudos empíricos sobre Entrevista Motivacional

Outro estudo recente investigou a contribuição que a entrevista motivacional tem sobre os resultados de aconselhamento e como a ETM se compara com outras intervenções. Um total de 119 estudos foram submetidos a uma meta-análise, incluindo uso de substâncias (tabaco, álcool, drogas, maconha), comportamentos relacionados à saúde (dieta, exercício, sexo seguro), apostas e engajamento em tratamento. Em função dos grupos de comparação, a ETM produziu resultados estatisticamente significativos e duráveis na gama de pequenos efeitos (média g = 0,28). Quando comparada com tratamentos específicos, a ETM produziu resultados não significativos (média g = 0,09). ETM foi robusta em feedback (Motivational Enhancement Therapy [MET]), tempo de entrega, manualização, modo de entrega (grupal versus individual) e etnia .

 

Lundahl BW, Kunz C, Brownell C,Tollefson D, Burke BL. A Meta-Analysis of Motivational Interviewing: Twenty-Five Years of Empirical Studies. Research on Social Work Practice 2010, 20(2):137 – 160.

 

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (1)

Como eu faço Entrevista Motivacional?

Para atuação na Entrevista Motivacional se faz fundamental a compreensão dos conceitos que defino como os pilares da ETM :

  • 1-Ambivalência
  • 2-Espirito da Entrevista Motivacional
  • 3-Metodologia: PARR
  • 4-Processos

 

  • 1 -Ambivalência

As pessoas que se encontram em meio a problemas sejam de saúde, profissional, social, de relacionamentos, com a justiça, entre outros,  chegam ao aconselhamento com motivações flutuantes e conflitantes. Ao mesmo tempo querem e não querem mudar. Esse conflito, que pode ser chamado de ambivalência, permeia principalmente as primeiras sessões do tratamento e parece ter um potencial especial para manter as pessoas aprisionadas e criar estresse. A pessoa é, ao mesmo tempo, atraída e repelida por um único objeto. O efeito resultante é uma característica clássica do conflito aproximação-evitação.

A ambivalência é um estado mental no qual a pessoa tem sentimentos coexistentes e conflitantes a respeito de alguma coisa. Uma postura de vulnerabilidade pode transformar-se em desafio e voltar à vulnerabilidade em poucos minutos.

Como esse conflito se desenvolve? Um ingrediente importante é o apego ao comportamento, o que torna mais difícil resistir ou afastar-se dele.

Um profissional que escuta uma manifestação comum de ambivalência do tipo “eu quero, mas não quero” poderia pressupor a existência de algo errado com o julgamento ou com o estado mental do cliente. Sua incerteza na maioria das vezes é vista como anormal, inaceitável ou como sinal de pouca motivação, o que não é a realidade. Em vez de ver a ambivalência como um “mau sinal”, é frutífero entendê-la como normal, aceitável e compreensível.

A EM considera a ambivalência como fonte de informações significativas que podem ser usadas produtivamente na terapia. A ambivalência se bem trabalhada, dá início ao processo de mudança. Desta forma, cabe ao profissional a tarefa de ajudar o cliente a identificar e liberar suas próprias forças motivacionais, afim de que possa ouvir mais a si mesmo. O profissional deve atuar como uma plataforma de petróleo, extraindo o que de mais rico e profundo há no cliente. Para a EM, o estilo do profissional em sua relação com o cliente é fundamental para aumentar a motivação para a mudança.

 

 

  • 2-O Espirito da Entrevista Motivacional

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A fim de facilitar ainda mais a compreensão da Entrevista Motivacional , Miller e Rollnick elaboram o “Espírito da EM”, que envolve um estilo colaborativo, evocativo e com respeito à autonomia do cliente, a destacar: Parceria ; Aceitação; Evocação e Compaixão.

  1. Parceria:

 

A EM é feita “com” e não “para” a pessoa. Trata-se de um elemento que reforça a necessidade do terapeuta interagir e se interessar pela história e evolução do cliente e não se ater a uma conduta prescritiva. Nesta perspectiva, a EM convida o profissional a construir em seu trabalho uma postura equilibrada na tensão entre seguir o indivíduo e também, guiá-lo. O profissional e o cliente procuram saídas juntos.

 

  1. Aceitação:

Para a compreensão da EM, a aceitação tem forte influência nas obras de Carl Rogers e propõe que o profissional se interesse e valorize o potencial de cada indivíduo. Aceitar a pessoa não significa necessariamente que o profissional aprova ou endossa o status quo ou as ações do cliente, ou seja, se o profissional aprova ou reprova é irrelevante. A aceitação consiste no reconhecimento do valor absoluto que o cliente dá aos seus argumentos e razões, na empatia acurada, no suporte à autonomia do cliente e no reforçamento positivo de falas, e posturas em prol da saúde e integridade de vida do cliente.

Não cabe ao profissional o julgamento, tampouco a imposição ou influência de suas próprias ideias. O julgamento, bem como outras abordagens, faz com que o profissional não escute o cliente e sim, a si mesmo (aos seus próprios valores, percepções do que seja certo ou errado, melhor ou pior para o outro, suposições e/ou interpretações). Este processo faz com que o profissional atue com uma intervenção prescritiva. A proposta da EM é que, no final das contas, o cliente escute a si mesmo e se dê conta de suas motivações e ambivalências, assumindo uma decisão perante seu comportamento de risco.

Para que o processo de aceitação se fortaleça, os autores sugerem ainda a necessidade de fortalecer o apoio à autonomia, na medida em que o profissional respeita a autonomia do cliente e reconhece sua capacidade de direcionar a própria vida. Para alguns profissionais este movimento pode ser difícil de ser feito, quando o cliente pode fazer escolhas e tomar atitudes que, na visão do profissional, não corresponderia ao que haveria de melhor para o seu cliente. Mesmo motivado por boas intenções, agindo desta forma o profissional corre o risco de induzir, coagir ou controlar o cliente, desconstruindo assim, o processo de aceitação.

Finalmente, para a EM a aceitação se completa quando há o movimento de afirmação pelo profissional, quando este busca reconhecer os pontos fortes da pessoa e reforçá-los de forma positiva.

  1. Evocação:

 

Evocar as forças que motivam a pessoa, ao invés de persuadir. Evocar quer dizer lembrar, recordar. Motivação vem de motivo, que quer dizer aquilo que pode fazer mover, motor que causa ou determina alguma coisa. A motivação é um recurso interno. A evocação traz a proposta de ajudar o cliente a se recordar de elementos próprios e únicos que podem se tornar motivos para que haja uma mudança de comportamento.

A mensagem implícita é “Você tem o que você precisa para a mudança e juntos, iremos encontrá-la”. Dentro dessa perspectiva é particularmente importante focar na compreensão das forças da pessoa e em seus recursos invés de focar em seus déficits.

 

  1. Compaixão:

A compaixão pode ser compreendida como um meio de tentar fazer o profissional se aproximar mais verdadeiramente da pessoa e não do problema dela. Uma vez que o profissional consegue ter acesso à unicidade de cada um, torna-se possível uma melhor compreensão das complexidades individuais que dificultam as mudanças de comportamento. É um ato de aproximar-se para verdadeiramente ajudar. Os autores reforçam o convite para “colocar a mão na massa” JUNTO com a pessoa e não PELA pessoa. Por isso eles também propõem a parceria.

 

 

  • Metodologia

Embora a reflexão seja a estratégia-chave na EM, é importante salientar que a metodologia não consiste apenas no uso de reflexões. A metodologia consiste na utilização de reflexões, reforços positivos, resumos e perguntas abertas em uma relação de no mínimo 2:1, ou seja, a utilização de cada duas estratégias para cada pergunta, com preferência das reflexões. Nesta relação, para cada vez que o profissional escolher fazer uma pergunta aberta, as outras duas estratégias deverão ser, preferencialmente, qualquer das outras disponíveis. Neste contexto, as perguntas são utilizadas em menor proporção porque espera-se que todas as estratégias possam gerar mais reflexão no cliente. A própria reflexão do cliente possibilita que ele fale mais do que o profissional e tenha uma oportunidade de ouvir a si mesmo – muito mais do que ao profissional – de descobrir coisas por si mesmo e, ao final, perceber que é capaz de discernir, fazer escolhas, tomar decisões e agir. Mesmo com estas possibilidades de estratégias a serem utilizadas por parte do profissional, o protagonismo deve ser sempre do próprio cliente.

Veja a seguir o acrônimo de PARR (em inglês OARS):

 
P: perguntas abertas.

A: afirmar – reforço positivo.

R: refletir.

R: resumo.

 

 

  • Os Processos da Entrevista Motivacional

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Em suas duas primeiras edições, os autores descreveram que a EM poderia ser dividida em duas fazes. A Fase 1, consistiu na construção da motivação para a mudança, partindo da construção que o cliente se dá para a realização da mudança em questão. Já a Fase 2, envolveria o fortalecimento do compromisso com a mudança, e o desenvolvimento de um plano de ação para a realização desta mudança. Após propostas estas fases, contudo, os autores reconheceram sua validade enquanto orientação, mas também reconheceram-na incompleta, porque no manejo clínico perceberam que este processo não acontecia de forma linear e sim, circular. Desta forma, a perspectiva linear em forma de fases, cedeu lugar à real perspectiva construída a partir de processos. A partir deste enfoque, a EM atualmente é então descrita na confluência de quatro processos que são: Engajamento , Foco, Evocação e Planejamento .

 

  1. Engajamento

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O engajamento consiste na construção de uma aliança terapêutica. Quando o profissional consegue estabelecer uma boa aliança terapêutica com o cliente, há mais engajamento no tratamento, possibilitando que haja uma maior adesão ao mesmo. Aqui, o engajamento é definido como um processo de construção em uma relação de ajuda, que busca uma solução para o problema apontado. Esta relação é pautada no respeito e na confiança mútuos. O cliente engajado não é passivo ao seu próprio processo de mudança. Alguns fatores podem influenciar no engajamento, tais como: identificar os desejos e objetivos do cliente; avaliar junto com o cliente o grau de importância dado aos seus objetivos; acolher o cliente de forma positiva, possibilitando que o mesmo se sinta valorizado e respeitado; trabalhar suas expectativas; oferecer esperança.

  1. Foco

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A construção do foco está no desenvolvimento e manutenção da direção específica da conversa para a mudança. O cliente durante o atendimento pode estar muitas vezes envolto em uma série de acontecimentos e sua tendência pode ser a de se concentrar nos sintomas ou nos fatos mais recentes que o levaram até ali, subvalorizando ou até mesmo desconhecendo o fator “causa”. Cabe ao profissional se preocupar em manter o foco durante o atendimento, para que a conversa não se perca no meio do caminho. Manter o foco na conversa ajuda na elaboração e no resgate do sentido, bem como possibilita a construção de uma direção para a mudança.

  1. Evocação

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Evocar consiste no movimento do profissional de extrair da pessoa os próprios sentimentos concernentes ao propósito de mudança. Esta é a essência da EM. Todas as conclusões ou caminhos a serem percorridos, devem ser uma conclusão que o cliente alcança sozinho, com o auxílio do profissional e não com a sua indução. A resposta para as questões deve ao final, sair da boca do cliente, como se fosse realmente uma grande descoberta! Uma perspectiva de um profissional especialista ou perito, recomendaria que este deveria identificar um problema, avaliar o que poderia estar sendo feito de errado e orientar o que deve ser feito para reparar ou consertar o que está errado. Esta visão é oposta à perspectiva da evocação. Aqui, cabe ao profissional aproveitar as próprias ideias do cliente para que este descubra como e por que pretende agir de determinada forma e seja verdadeiramente ativo em seu próprio processo. Vale ressaltar que o modelo do especialista ou perito é indicado em muitos manejos clínicos como, por exemplo, na realização de uma cirurgia. Porém, os autores salientam que, para a EM, este manejo é contra-indicado em processos de transformação pessoal.

  1. Planejamento

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O planejamento está na construção do movimento de “quando” e “como” mudar. Tomando-se como base os estágios de prontidão para a mudança, há um momento em que o cliente diminui os seus questionamentos e começa a se preparar para uma tomada de atitude. Neste momento, o planejamento é fundamental, uma vez que desenvolve a formulação de um plano de ação específico, podendo encorajar o cliente a aumentar seu compromisso com a mudança. A construção do planejamento não deve ser prescrito e sim, evocado do cliente; da mesma forma, não deve ser pontual e deve ser sempre revisto. Quando há ensaios rumo ao movimento para a mudança, o planejamento torna o cliente mais seguro, uma vez que promove sentimentos de auto-eficácia pautados na sua autonomia e nas suas tomadas de decisões.

 

Escuta Ativa na Entrevista Motivavional

Escuta Ativa na Entrevista Motivacional

Na Entrevista Motivacional o processo de escuta ativa requer:

– Atenção cuidadosa ao que o cliente diz;

– Visualização clara do que foi dito;

– Formulação da hipótese concernente ao problema, sem suposições ou interpretações;

– Articular a hipótese por meio de uma abordagem não defensiva.

 

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Ao refletir, o profissional se envolve na relação, mas ao mesmo tempo, deve ser fiel ao que o cliente disse.  As relações com o cliente são autênticas e devem permitir que ele exprima abertamente seus sentimentos e atitudes sobre o seu comportamento e o processo mudança. Oferecer uma escuta reflexiva requer treinamento e prática para também pensar reflexivamente. Vale destacar que uma reflexão sempre termina com um ponto final. Quando a fala do profissional é emitida com uma interrogação ou exclamação deixa de ser uma reflexão.

Para avaliar se a reflexão feita foi efetiva, basta analisar a reação do cliente: se ele expressa concordância, não apresenta postura defensiva,  sente-se estimulado a falar mais, apresenta uma postura verbal mais relaxada ou motivada, houve êxito. Por outro lado, se o cliente começa advertir ou ameaçar, persuadir, argumentar, discordar, julgar, criticar ou culpar, retrair, distrair, ser indulgente ou mudar de assunto; esses são indicativos claros de que a reflexão não foi eficaz e cabe ao profissional reformular sua maneira de atuar.

alcoolismo

Resiliência em famílias com problemas relacionados ao abuso de substâncias

Resiliência em famílias com problemas relacionados ao abuso de substâncias

Roberta Payá, Sandra Pillon, Neliana Buzi Figlie

Obter informações sobre as funções e características das famílias com problemas relacionados ao abuso de substâncias contribui para explorar possíveis estratégias para fortalecimento e modificação de comportamentos de risco. Investigar a resiliência familiar não só facilita uma ampla compreensão do sistema familiar, mas também sublinha a necessidade de incluir ferramentas específicas para desenvolver atributos familiares desejáveis ​​no campo da clínica e intervenções comunitárias.

O Index of Re-generativity and Adaptation-General (FIRA-G) foi desenvolvido para investigar as dimensões do funcionamento familiar, incluindo a resiliência. Este estudo avaliou a confiabilidade da FIRA-G em um estudo caso-controle de 305 famílias de São Paulo com e sem familiares com problemas relacionados ao abuso de bebidas alcoólicas e drogas, comparados com famílias que não possuem problemas relacionados ao abuso dessas substancias (grupo controle).

A resiliência foi avaliada utilizando os sete índices da FIRA-G, sendo que foram encontradas diferenças significativas na comparação entre os grupos em 4  índices:  Tensões Familiares (t = 24,4; p <.000), Resiliência Total (t = 12,7; p <.0001), Robustez Familiar (t = 13,2; p <.000) e Angustia Familiar ( T = 50,5; p <.000).  Para todos, exceto o índice Robustez Familiar, as médias dos grupos com familiares com problemas relacionados ao uso de substancias  foram maiores do que as do grupo controle. Para o índice Tensões Familiares, as médias para os grupos de filhos cujos pais eram alcoólatras (M = 14,7; SD = 10,3) ou dependentes de drogas (M = 13,3; DP = 7,9) eram semelhantes e ambos eram maiores do que grupo de controle (p <.000). O grupo de familiares com problemas relacionados ao uso de substancias teve a pontuação média mais alta (p <.000) no índice de Robustez Familiar (M = 16,4; SD = 8,7), seguido do grupo de familiares com problemas relacionados ao uso de álcool (M = 15; SD = 8,3). No índice de Angustia familiar, o grupo controle apresentou a média mais alta (M = 43,6; SD = 7,8), seguido do álcool (M = 41; SD = 8,7) e do grupo de drogas (M = 35,7; SD = 10,4).

A diferença no Índice Total de Resiliência evidenciou que o grupo de controle (M = 20,8; SD = 11,8) apresentou menor condição de resiliência do que o grupo com familiares de dependentes de álcool (M =29,6; SD = 16).  Não foram encontradas outras diferenças entre os grupos nos outros índices. Embora não houvesse diferenças significativas no Índice de Apoio Social (t = 0,52; p = 0,837), o grupo de drogas (M = 63,2; SD = 10,4) apresentou menor suporte social em comparação com o álcool (M = 64,2; SD = 9,7) e grupo de controle (M = 64,7; SD = 8).

Estudos adicionais devem ser realizados para avaliar amostras vivendo em diferentes condições sociais

Acesse aqui o artigo na íntegra

 

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