COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (6)

Entrevista Motivacional com Famílias

Um pequeno, mas um crescente número de publicações evidenciam a aplicabilidade da Entrevista Motivacional com famílias que enfrentam o uso de substâncias psicoativas. A Entrevista Motivacional maximiza a possibilidade de engajamento familiar no tratamento, mediante a sensibilidade do profissional ao contexto de desenvolvimento familiar que inclui as respostas dos membros as demandas do ciclo de vida familiar, bem como comportamento de risco e fatores estressores que podem estar presentes. Neste contexto é necessário considerar, quem percebe a situação, quem fala, quem ouve e em que ordem isso é realizado, pois ao trabalhar com a família , o profissional deve estar atento a todo funcionamento grupal, bem como a participação de todos os membros no tratamento, tanto nas sessões , quanto fora delas.

O processo de mudança requer engajamento familiar, sendo a queixa algo que todos os membros da família necessitam abordar.

A fundamentação da Entrevista Motivacional é pautada na utilização de habilidades de aconselhamento empáticas, centradas na família  com o objetivo de aumentar a motivação para  explorar e resolver ambivalência, enfatizando a importância da escuta qualificada para o engajamento familiar na intervenção de modo a ajudar a família a explorar e, esperançosamente, resolver sua ambivalência.

 

Neste sentido, os autores da Entrevista Motivacional chamam à atenção para que os profissionais tomem cuidado e não se deixem influenciar por uma conduta na qual intitulam “reflexo de endiretamento”, que seria o desejo do profissional de tentar corrigir no outro aquilo que lhe parece errado, modificando o curso das ações a partir de suas próprias perspectivas ou do local de trabalho.

A Entrevista Motivacional parte do pressuposto de que quem tem a verdade ou as respostas para os questionamentos é a própria família; cabe ao profissional evocar estas informações e empoderar o grupo familiar quanto a este saber.

 

Maiores informações:

Figlie, NB. Entrevista Motivacional com Famílias. In: Payá, R. e col. Intervenções Familiares para abuso e dependência de álcool e outras drogas. Rio de janeiro: RJ: Gen, 2017 pp 87 – 101. ISBN 978-85-277-3048-8.

 

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (5)

Entrevista Motivacional como alternativa para o uso de Substancias Psicoativas

Na maioria das vezes a pessoa que procura um tratamento com um profissional de saúde traz a crença de que a hora que quiser eu paro;  que já tentou tantas vezes e que não vai conseguir; que usar ou beber um pouco, não fará mal, entre outras crenças.

A entrevista motivacional (EM) é um estilo de aconselhamento utilizado  em diversas áreas da saúde, social, educação e judiciária que almeja promoção de  mudanças comportamentais. Por meio de uma conversa colaborativa, que envolve parceria, aceitação, compaixão o profissional evoca as motivações intrínsecas do cliente que o levam a manter um consumo de substancias, bem como aqueles que procuram ajuda para interromper o consumo.

O passo inicial é a aceitação da realidade e envolvimento na tomada de decisões:   Não se assuste se descobrir que você está em situações extremas, pois nem tudo é só preto ou só branco, existem situações que podem ser mudadas e só dependem de você. Lembre-se que existem muitas pessoas que estão divididas (querem parar porque estão com problemas financeiros, mas querem continuar bebendo porque a bebida lhe dá mais prazer na vida, por exemplo). Se faz necessário  avaliar os dois lados da questão e descrever as vantagens e desvantagens entre parar e continuar com o uso.

O profissional deve encorajar e conduzir o trabalho de modo que a pessoa inicialmente se engaje no tratamento e para tal, essa deve estabelecer um foco claro com relação a mudança que almeja realizar, para posteriormente o profissional trabalhar a evocação de seus valores, motivos, desejos e habilidades para a realização da mudança. Por fim, profissional e cliente realizam juntos o planejamento da intervenção focado na mudança de comportamento possível e viável para a pessoa diante das condições no seu momento presente.

Neste contexto, se faz necessário compreender a ambivalência como a percepção do cliente sobre a importância que ele atribui à mudança, bem como quão confiante se sente para a realização dessa mudança.  Um método simples para avaliar a importância e a confiança é a escala de disposição.

 

Escala de Disposição

Quão importante é para você realizar esta mudança? Em uma escala de 0 a 10, sendo o 0 não importante e o 10 extremamente importante, que nota você se daria?

                                 0…1…2…3…4…5…6…7…8…9…10

Sem importância                                                              Muito importante

 

Quão confiante você se sente para realizar esta mudança? Em uma escala de 0 a 10, sendo o 0 sem confiança e o 10 muito confiante, que nota você se daria?

                           0…1…2…3…4…5…6…7…8…9…10

Sem confiança                                                   Muito confiante

 

Ao profissional compete compreender os diferentes perfis dos clientes de acordo com a importância e com a confiança que sentem em relação a sua mudança.

Grupo A – Baixa importância e confiança Grupo B – Baixa importância e alta confiança
Os indivíduos não veem como importante ou não acreditam que podem ter sucesso se tentarem mudar. Os indivíduos mostram-se confiantes para a realização da mudança e não visualizam sua importância.
Grupo C – Alta importância e baixa confiança Grupo D – Altas importância e confiança
Essas pessoas não desejam mudar porque não se acham em condições de fazê-lo. Estas pessoas acham a mudança importante e acreditam que podem ter sucesso na realização dela.

 

Os perfis A,B e C são aqueles que mais se beneficiarão da ETM.

 

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (2)

O papel da Ambivalência na Entrevista Motivacional

No geral, as pessoas se sentem ambivalentes em relação à mudança, porque, de certa forma, existem desvantagens em mudar frente ao desconhecido – por mais que a opção seja em nome da saúde. Um sinal claro de ambivalência é o MAS no meio da frase. Exemplo:  Preciso parar de fazer o esquenta com os meus amigos, mas  esse é o momento mais divertido. A ambivalência faz com que as pessoas se percam em seus objetivos e costuma ser experimentada da seguinte maneira: a pessoa pensa inicialmente em uma razão para mudar, depois pensa em uma razão para não mudar e, por fim, parar de pensar a respeito.

 

Quando o profissional adota um estilo confrontativo com a pessoa ambivalente, acaba por adotar um lado da ambivalência. Nessa situação, uma resposta comum é a argumentação do cliente. Na ETM a meta é evocar a conversa sobre a mudança em vez de evocar a resistência na mudança. É indicado que o profissional ouça os argumentos em favor da transformação, pois quando o profissional defende a mudança e o cliente defende seus argumentos, a conversa tende a fracassar.

 

A ambivalência é um estado mental no qual a pessoa tem sentimentos coexistentes e conflitantes a respeito de alguma coisa. Uma postura de vulnerabilidade pode transformar-se em desafio e voltar à vulnerabilidade em poucos minutos.

 

Como esse conflito se desenvolve? Um ingrediente importante é o apego ao comportamento, o que torna mais difícil resistir ou afastar-se dele. A dependência psicofarmacológica é uma forma de apego: o corpo da pessoa adapta-se à presença da substância (tolerância) e, quando esta é retirada, o corpo entra em um estado de desadaptação (abstinência). Os padrões de aprendizagem ou condicionamento também podem ser fontes muito poderosas de apego a certos comportamentos: a descontração e o convívio nas baladas passam a estar associadas ao uso de ál­cool, assim como uma tragada no cigarro após as refeições. Os comportamentos relacionados com o uso de substâncias também podem ser utilizados como meio de enfrentamento : a pessoa passa a contar com a substância para ajudá-la a lidar com estados difíceis ou desagradáveis (a se aproximar ou falar com pessoas, a relaxar em um momento de raiva, a sentir coragem etc.) e, com o tempo, torna-se mais difícil enfrentar tais situações sem o uso da substância.

Um profissional que escuta uma manifestação comum de ambivalência do tipo “eu quero, mas não quero” poderia pressupor a existência de algo errado com o julgamento ou com o estado mental do cliente. Sua incerteza poderia ser vista como anormal, inaceitável e como sinal de pouca motivação. O conceito de motivação atualmente é compreendido como um estado de prontidão que pode oscilar com o tempo e como fruto de interação interpessoal. Na ETM, o estilo do profissional em sua relação com o cliente é fundamental para aumentar a motivação para a mudança.

 

Em vez de visualizar a ambivalência como um “mau sinal”, é necessário entendê-la como normal, aceitável e compreensível. Exemplo: “ Sei que bebi demais, mas não conte aos meus pais porque eles não vão entender”. Uma escuta reflexiva seria : “Estou entendendo que você percebe que exagerou e por isso teme a reação dos seus pais” .

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (1)

Como suscitar a Fala de Mudança?

As pessoas inicialmente falam sobre o que querem fazer (desejo), por que mudariam (razões), como fariam (capacidade) e o quão importante é (necessidade). Em seguida, vem o comprometimento que – se fortalecido – aumenta gradualmente em direção à mudança. Para tal, torna-se relevante prospectar os valores, aspirações e esperanças do cliente, de modo a culminar nos passos para a mudança do comportamento.

 

Para tanto, é imprescindível ouvir o cliente, pois ele é o maior especialista em sua própria vida. É esperado na ETM que o profissional fale cerca de 25 a 30% do tempo. O restante cabe ao cliente.  Para facilitar a compreensão do leitor, existem seis tipos de conversa sobre mudança: Desejo, Capacidade, Razões, Necessidade, Comprometimento, Ação.

Estes tipos de conversa são sequenciais e conforme a motivação para a mudança aumenta, a conversa vai se transformando progressivamente. No entanto, vale destacar que podem ocorrer oscilações. Exemplo: uma pessoa fala sobre suas razões para mudar, mas diante de uma colocação confrontativa por parte do profissional ou alguma variável externa, a pessoa volta a falar sobre seu desejo. Nesta situação, a meta do profissional é sempre atuar em prol de atingir a fala seguinte e não simplesmente do desejo ir para o comprometimento ou ação.

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL

Estilo de Comunicação na Entrevista Motivacional

Muitas vezes, um atendimento mais se parece com um ringue de luta, onde o cliente defende o status quo e o profissional está persuadindo-o de que existe um ‘problema’ e  de que alguma mudança ‘precisa’ ser feita. Ao final da conversa, fica a sensação de que houve um embate no qual ambos sentem ter perdido a ‘batalha’. Uma das características mais marcantes da ETM é o profissional perceber,  que  seu contato com o cliente se deu de forma tranquila e pouco conflituosa. Uma analogia bastante comum à ETM é a dança. Faz parte da tarefa do profissional conduzir gentilmente seu cliente em direção à mudança. Como acontece numa dança, apesar dessa ter um responsável por conduzir os passos, o casal precisa fluir em concordância e sintonia para que a atividade seja desfrutada ao máximo.

O estilo de comunicação diz respeito à postura e abordagem utilizada pelo profissional para ajudar as pessoas. Cada um dos três estilos de comunicação propostos aqui reflete posturas diferentes sobre o papel do profissional no seu relacionamento com o cliente. Assim, cada um deles deve ser analisado e utilizado durante o processo de mudança nas situações e momentos distintos que surgirão(5):

  1. Acompanhar: Dar atenção total ao que o cliente está falando. Consiste predominantemente em escutar de forma atenta, sem julgar ou criticar. O objetivo é entender a experiência e os valores do outro, ou seja, entender o que está acontecendo pelos olhos do cliente. Exemplo: “Eu não vou falar para você parar de beber. Primeiro, eu gostaria de entender melhor o por que você está precisando beber.”
  2. Direcionar: Este estilo de comunicação evidencia o relacionamento interpessoal. Em momentos específicos, um direcionamento por parte do profissional se faz vital. Existem situações em que a pessoa deverá ser encorajada a confiar no conhecimento e experiência do profissional para que a conversa seja viável e segura. Por exemplo: um aluno que chegou na escola alcoolizado, deverá receber os primeiros cuidados e ter a segurança de que os pais serão chamados a escola, mas que essa conversa será intermediada pelo profissional e não será apenas um aviso para que os pais venham busca-lo na escola porque encontra-se alcoolizado. O uso de substâncias é uma consequência de algo que não está bem na vida daquele jovem e não causa.
  3. Orientar: Ajudar a pessoa a encontrar um caminho de acordo com a mudança que ele deseja fazer no momento, oferecendo um menu de opções que possam’’ auxiliá-lo no processo de transformação. Exemplo: “Eu posso ajudá-lo ao relatar quais os recursos que geralmente as pessoas utilizam para lidar com os momentos de fissura, assim você poderá testá-los e escolher aqueles que forem mais úteis para você”.
depoimentos

Depoimento dos alunos Modulo Básico – março 2018

Melina M. Basílio Masi, Enfermeira A.T

Durante o curso aprendi novas formas de aplicar as perguntas. A teoria sobre as intervenções que faço, adquirindo muito mais conhecimento e desejo de continuar a aprender mais sobre o assunto.

Voltei a aprender a importância do trabalho e estudo juntos a outros (troca).

Observei que a metodologia do curso é clara.

Desfrutei dos exercícios práticos e todo conteúdo teórico.

Foi além do que eu imaginava!

 

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Maria Cristina Puoli, Psicóloga

Durante o curso aprendi a ouvir com mais atenção os meus clientes.

Voltei a aprender a me focar em “ achar o foco ¨ da situação.

Observei a minha dificuldade em dar reforço positivo.

Desfrutei das atividades de role play.

Desejo continuar a focar na “ mão na massa. “

 

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Paula Becker – T.O Pesquisadora

Durante o curso aprendi a respeitar o momento do cliente e a interpretar menos, dançando de acordo com o ritmo escolhido por ele.

Voltei a aprender a identificar a ambivalência e as fases do TTM no discurso do cliente.

Observei o quanto é importante sermos como uma página em branco na conversa colaborativa e no movimento empático.

Desfrutei de enorme aprendizagem e vislumbramento de novas possibilidades.

 

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Gisela Petran, Engenheira Química

Durante o curso aprendi fazer perguntas reflexivas.

Voltei a aprender que existe o negativo e o positivo, dependendo do meio que você está inserido.

Observei o quanto passo aprender com a diversidade.

Desfrutei variedade de vivencias.

 

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Ziyad Abdel Hadi, psiquiatra

Durante o curso aprendi a conduzir uma entrevista motivacional focado no PAAR e trabalhar a ambivalência do cliente. Noções básicas de entrevista motivacional.

Voltei a aprender empoderar o cliente, respeitar a autonomia do cliente, aprimorar a empatia e reflexão.

Observei a importância de trabalhar o engajamento, controlando a ansiedade de prosseguir para outras etapas.

Desfrutei da dinâmica do grupo.

 

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Cristiano Machado, terapeuta

Durante o curso aprendi a importância da EM a conduzir para o engajamento do cliente e a escuta que temos que ter para não julgar.

Voltei a aprender a importância do uso de perguntas abertas para que o cliente se abra ao terapeuta.

Observei a sutileza que se deve usar ao abordar o cliente. A importância da empatia para a adesão ao tratamento.

Desfrutei das diferentes visões sobre um mesmo tema.

 

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Marcelo Bosco, terapeuta

Durante o curso aprendi identificar os estágios motivacionais, buscar a ambivalência, a neutralidade, a reflexão e o PARR

Voltei a aprender compaixão

Observei uma dificuldade em ser neutro, não ser invasivo.

Desfrutei de um curso estruturado e leve, com ótimos parceiros.

 

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Ângela, psicóloga

Durante esse curso aprendi a ouvir de forma mais neutra com compaixão.

Voltei a prestar mais atenção as ambivalências; a não “ cobrar “ do cliente, a não cobrar de mim.

Desfrutei das matérias utilizadas, da experiência da professora e da vivencia com o grupo.

 

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Felippe Feijó, psicólogo

Durante o curso aumentei a minha compreensão sobre a metodologia PARR.

Voltei a aprender sobre o espirito da ETM.

Observei o quanto é possível fazermos diferença na vida de nossos clientes, mesmo os que veem com os dilemas mais difíceis.

Desfrutei da companhia da Neliana.

O curso foi fantástico!

 

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (2)

Metanálise de Entrevista Motivacional em cuidados médicos

Uma metanálise recente avaliou 48 estudos (9618 participantes) em ambientes de assistência médica. O efeito global mostrou uma vantagem estatisticamente significativa para ETM: Odd ratio = 1,55 (CI: 1,40-1,71), z = 8,67, p <0,001. A ETM mostrou-se particularmente promissora em áreas como tratamento do HIV, odontologia, prevenção da mortalidade, peso corporal, consumo de álcool e tabaco, comportamento sedentário, auto-monitoramento e confiança na mudança. A ETM  não foi particularmente eficaz com transtorno alimentar e em alguns desfechos médicos relacionados a freqüência cardíaca.

 

Lundahl B, Moleni T, Burke BL, Butters R, Tollefson D, Butler C, Rollnick S.  Motivational interviewing in medical care settings: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials .  Patient Education and Counseling 2013, 93:157–168.

 

COMO FAZER ENTREVISTA MOTIVACIONAL (1)

Como eu faço Entrevista Motivacional?

Para atuação na Entrevista Motivacional se faz fundamental a compreensão dos conceitos que defino como os pilares da ETM :

  • 1-Ambivalência
  • 2-Espirito da Entrevista Motivacional
  • 3-Metodologia: PARR
  • 4-Processos

 

  • 1 -Ambivalência

As pessoas que se encontram em meio a problemas sejam de saúde, profissional, social, de relacionamentos, com a justiça, entre outros,  chegam ao aconselhamento com motivações flutuantes e conflitantes. Ao mesmo tempo querem e não querem mudar. Esse conflito, que pode ser chamado de ambivalência, permeia principalmente as primeiras sessões do tratamento e parece ter um potencial especial para manter as pessoas aprisionadas e criar estresse. A pessoa é, ao mesmo tempo, atraída e repelida por um único objeto. O efeito resultante é uma característica clássica do conflito aproximação-evitação.

A ambivalência é um estado mental no qual a pessoa tem sentimentos coexistentes e conflitantes a respeito de alguma coisa. Uma postura de vulnerabilidade pode transformar-se em desafio e voltar à vulnerabilidade em poucos minutos.

Como esse conflito se desenvolve? Um ingrediente importante é o apego ao comportamento, o que torna mais difícil resistir ou afastar-se dele.

Um profissional que escuta uma manifestação comum de ambivalência do tipo “eu quero, mas não quero” poderia pressupor a existência de algo errado com o julgamento ou com o estado mental do cliente. Sua incerteza na maioria das vezes é vista como anormal, inaceitável ou como sinal de pouca motivação, o que não é a realidade. Em vez de ver a ambivalência como um “mau sinal”, é frutífero entendê-la como normal, aceitável e compreensível.

A EM considera a ambivalência como fonte de informações significativas que podem ser usadas produtivamente na terapia. A ambivalência se bem trabalhada, dá início ao processo de mudança. Desta forma, cabe ao profissional a tarefa de ajudar o cliente a identificar e liberar suas próprias forças motivacionais, afim de que possa ouvir mais a si mesmo. O profissional deve atuar como uma plataforma de petróleo, extraindo o que de mais rico e profundo há no cliente. Para a EM, o estilo do profissional em sua relação com o cliente é fundamental para aumentar a motivação para a mudança.

 

 

  • 2-O Espirito da Entrevista Motivacional

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A fim de facilitar ainda mais a compreensão da Entrevista Motivacional , Miller e Rollnick elaboram o “Espírito da EM”, que envolve um estilo colaborativo, evocativo e com respeito à autonomia do cliente, a destacar: Parceria ; Aceitação; Evocação e Compaixão.

  1. Parceria:

 

A EM é feita “com” e não “para” a pessoa. Trata-se de um elemento que reforça a necessidade do terapeuta interagir e se interessar pela história e evolução do cliente e não se ater a uma conduta prescritiva. Nesta perspectiva, a EM convida o profissional a construir em seu trabalho uma postura equilibrada na tensão entre seguir o indivíduo e também, guiá-lo. O profissional e o cliente procuram saídas juntos.

 

  1. Aceitação:

Para a compreensão da EM, a aceitação tem forte influência nas obras de Carl Rogers e propõe que o profissional se interesse e valorize o potencial de cada indivíduo. Aceitar a pessoa não significa necessariamente que o profissional aprova ou endossa o status quo ou as ações do cliente, ou seja, se o profissional aprova ou reprova é irrelevante. A aceitação consiste no reconhecimento do valor absoluto que o cliente dá aos seus argumentos e razões, na empatia acurada, no suporte à autonomia do cliente e no reforçamento positivo de falas, e posturas em prol da saúde e integridade de vida do cliente.

Não cabe ao profissional o julgamento, tampouco a imposição ou influência de suas próprias ideias. O julgamento, bem como outras abordagens, faz com que o profissional não escute o cliente e sim, a si mesmo (aos seus próprios valores, percepções do que seja certo ou errado, melhor ou pior para o outro, suposições e/ou interpretações). Este processo faz com que o profissional atue com uma intervenção prescritiva. A proposta da EM é que, no final das contas, o cliente escute a si mesmo e se dê conta de suas motivações e ambivalências, assumindo uma decisão perante seu comportamento de risco.

Para que o processo de aceitação se fortaleça, os autores sugerem ainda a necessidade de fortalecer o apoio à autonomia, na medida em que o profissional respeita a autonomia do cliente e reconhece sua capacidade de direcionar a própria vida. Para alguns profissionais este movimento pode ser difícil de ser feito, quando o cliente pode fazer escolhas e tomar atitudes que, na visão do profissional, não corresponderia ao que haveria de melhor para o seu cliente. Mesmo motivado por boas intenções, agindo desta forma o profissional corre o risco de induzir, coagir ou controlar o cliente, desconstruindo assim, o processo de aceitação.

Finalmente, para a EM a aceitação se completa quando há o movimento de afirmação pelo profissional, quando este busca reconhecer os pontos fortes da pessoa e reforçá-los de forma positiva.

  1. Evocação:

 

Evocar as forças que motivam a pessoa, ao invés de persuadir. Evocar quer dizer lembrar, recordar. Motivação vem de motivo, que quer dizer aquilo que pode fazer mover, motor que causa ou determina alguma coisa. A motivação é um recurso interno. A evocação traz a proposta de ajudar o cliente a se recordar de elementos próprios e únicos que podem se tornar motivos para que haja uma mudança de comportamento.

A mensagem implícita é “Você tem o que você precisa para a mudança e juntos, iremos encontrá-la”. Dentro dessa perspectiva é particularmente importante focar na compreensão das forças da pessoa e em seus recursos invés de focar em seus déficits.

 

  1. Compaixão:

A compaixão pode ser compreendida como um meio de tentar fazer o profissional se aproximar mais verdadeiramente da pessoa e não do problema dela. Uma vez que o profissional consegue ter acesso à unicidade de cada um, torna-se possível uma melhor compreensão das complexidades individuais que dificultam as mudanças de comportamento. É um ato de aproximar-se para verdadeiramente ajudar. Os autores reforçam o convite para “colocar a mão na massa” JUNTO com a pessoa e não PELA pessoa. Por isso eles também propõem a parceria.

 

 

  • Metodologia

Embora a reflexão seja a estratégia-chave na EM, é importante salientar que a metodologia não consiste apenas no uso de reflexões. A metodologia consiste na utilização de reflexões, reforços positivos, resumos e perguntas abertas em uma relação de no mínimo 2:1, ou seja, a utilização de cada duas estratégias para cada pergunta, com preferência das reflexões. Nesta relação, para cada vez que o profissional escolher fazer uma pergunta aberta, as outras duas estratégias deverão ser, preferencialmente, qualquer das outras disponíveis. Neste contexto, as perguntas são utilizadas em menor proporção porque espera-se que todas as estratégias possam gerar mais reflexão no cliente. A própria reflexão do cliente possibilita que ele fale mais do que o profissional e tenha uma oportunidade de ouvir a si mesmo – muito mais do que ao profissional – de descobrir coisas por si mesmo e, ao final, perceber que é capaz de discernir, fazer escolhas, tomar decisões e agir. Mesmo com estas possibilidades de estratégias a serem utilizadas por parte do profissional, o protagonismo deve ser sempre do próprio cliente.

Veja a seguir o acrônimo de PARR (em inglês OARS):

 
P: perguntas abertas.

A: afirmar – reforço positivo.

R: refletir.

R: resumo.

 

 

  • Os Processos da Entrevista Motivacional

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Em suas duas primeiras edições, os autores descreveram que a EM poderia ser dividida em duas fazes. A Fase 1, consistiu na construção da motivação para a mudança, partindo da construção que o cliente se dá para a realização da mudança em questão. Já a Fase 2, envolveria o fortalecimento do compromisso com a mudança, e o desenvolvimento de um plano de ação para a realização desta mudança. Após propostas estas fases, contudo, os autores reconheceram sua validade enquanto orientação, mas também reconheceram-na incompleta, porque no manejo clínico perceberam que este processo não acontecia de forma linear e sim, circular. Desta forma, a perspectiva linear em forma de fases, cedeu lugar à real perspectiva construída a partir de processos. A partir deste enfoque, a EM atualmente é então descrita na confluência de quatro processos que são: Engajamento , Foco, Evocação e Planejamento .

 

  1. Engajamento

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O engajamento consiste na construção de uma aliança terapêutica. Quando o profissional consegue estabelecer uma boa aliança terapêutica com o cliente, há mais engajamento no tratamento, possibilitando que haja uma maior adesão ao mesmo. Aqui, o engajamento é definido como um processo de construção em uma relação de ajuda, que busca uma solução para o problema apontado. Esta relação é pautada no respeito e na confiança mútuos. O cliente engajado não é passivo ao seu próprio processo de mudança. Alguns fatores podem influenciar no engajamento, tais como: identificar os desejos e objetivos do cliente; avaliar junto com o cliente o grau de importância dado aos seus objetivos; acolher o cliente de forma positiva, possibilitando que o mesmo se sinta valorizado e respeitado; trabalhar suas expectativas; oferecer esperança.

  1. Foco

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A construção do foco está no desenvolvimento e manutenção da direção específica da conversa para a mudança. O cliente durante o atendimento pode estar muitas vezes envolto em uma série de acontecimentos e sua tendência pode ser a de se concentrar nos sintomas ou nos fatos mais recentes que o levaram até ali, subvalorizando ou até mesmo desconhecendo o fator “causa”. Cabe ao profissional se preocupar em manter o foco durante o atendimento, para que a conversa não se perca no meio do caminho. Manter o foco na conversa ajuda na elaboração e no resgate do sentido, bem como possibilita a construção de uma direção para a mudança.

  1. Evocação

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Evocar consiste no movimento do profissional de extrair da pessoa os próprios sentimentos concernentes ao propósito de mudança. Esta é a essência da EM. Todas as conclusões ou caminhos a serem percorridos, devem ser uma conclusão que o cliente alcança sozinho, com o auxílio do profissional e não com a sua indução. A resposta para as questões deve ao final, sair da boca do cliente, como se fosse realmente uma grande descoberta! Uma perspectiva de um profissional especialista ou perito, recomendaria que este deveria identificar um problema, avaliar o que poderia estar sendo feito de errado e orientar o que deve ser feito para reparar ou consertar o que está errado. Esta visão é oposta à perspectiva da evocação. Aqui, cabe ao profissional aproveitar as próprias ideias do cliente para que este descubra como e por que pretende agir de determinada forma e seja verdadeiramente ativo em seu próprio processo. Vale ressaltar que o modelo do especialista ou perito é indicado em muitos manejos clínicos como, por exemplo, na realização de uma cirurgia. Porém, os autores salientam que, para a EM, este manejo é contra-indicado em processos de transformação pessoal.

  1. Planejamento

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O planejamento está na construção do movimento de “quando” e “como” mudar. Tomando-se como base os estágios de prontidão para a mudança, há um momento em que o cliente diminui os seus questionamentos e começa a se preparar para uma tomada de atitude. Neste momento, o planejamento é fundamental, uma vez que desenvolve a formulação de um plano de ação específico, podendo encorajar o cliente a aumentar seu compromisso com a mudança. A construção do planejamento não deve ser prescrito e sim, evocado do cliente; da mesma forma, não deve ser pontual e deve ser sempre revisto. Quando há ensaios rumo ao movimento para a mudança, o planejamento torna o cliente mais seguro, uma vez que promove sentimentos de auto-eficácia pautados na sua autonomia e nas suas tomadas de decisões.

 

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Wellness, Not Weight – Health at Every Size and Motivational Interviewing

Indicação de Livro:

Wellness, Not Weight – Health at Every Size and Motivational Interviewing

Ellen R. Glovsky, PhD, RD, LDN Idioma: Inglês Ano: 2014

O livro traz uma perspectiva nova para as questões de peso, saúde e assistência as pessoas que desejam mudar o comportamento relativo as questões de alaimentação. Enquanto muitos textos nas áreas de ciências da saúde e nutrição discutem abordagens específicas e singulares para perda de peso, este livro é o primeiro a abordar a Saúde em todos os tamanhos, Entrevista Motivacional e na não-dieta, com uma abordagem de bem-estar para a gestão da saúde. O livro é dividido em três partes: 1. explora os três conceitos básicos: argumento para um foco no bem-estar, em vez do peso corporal, o conceito de saúde em cada tamanho e Entrevista Motivacional; 2. fornece informações mais detalhadas para profissionais e acadêmicos ao apresentar a ciência por trás das abordagens, explicações claras e convincentes de potenciais falhas e riscos em uma abordagem apenas centrada no peso, incluindo as questões de imagem corporal. Esta seção do livro também fornece informações sobre como orientações dietéticas podem ser prejudiciais para os consumidores, com uma exploração especial dos perigos para as crianças. A Parte III do livro ajuda os profissionais de saúde a comunicar uma abordagem de não-dieta para clientes e pacientes, bem como uma discussão sobre o uso de técnicas de entrevista motivacional. Afastando-se das abordagens tradicionais de perda de peso, os capítulos incluídos discutem alimentação consciente, o modelo de competência no comer, passos práticos para melhorar a saúde e espiritualidade.

 

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“QUANTUM CHANGE: WHEN EPIPHANIES AND SUDDEN INSIGHTS TRANSFORM ORDINARY LIVES”

Indicação de Livro:

“QUANTUM CHANGE: WHEN EPIPHANIES AND SUDDEN INSIGHTS TRANSFORM ORDINARY LIVES”

William R. Miller Phd and Janet C’de Baca Phd Idioma: Inglês Ano: 2001
O livro aborda o questionamento dos autores sobre um tipo diferente de mudança que foi algumas vezes experimentado por pessoas que encontraram algo descrito como ” um raio do céu ” ou ” ver a luz no fim do túnel”. Os autores escreveram este livro com histórias reais e comoventes.
Explorando a experiência de “mudança quântica” através da lente da psicologia científica, o livro identifica dois tipos de transformação pessoal súbita: insights e as epifanias mais místicas. Muitos participantes contaram suas epifanias e percepções repentinas em requintados detalhe após um evento, descrevendo tais resultados como duradouros e gerando um novo sentido na vida, com mudança nos valores ou metas. Os achados examinam as condições de vida e traços de personalidade antes e depois da mudança quântica ter ocorrido evidenciando que tais experiências não são tão incomuns como tipicamente se acreditava.

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