Home » Blog » Metodologia da Entrevista Motivacional: PARR

Metodologia da Entrevista Motivacional: PARR

ETM

Embora a reflexão seja a estratégia-chave na EM, é importante salientar que a metodologia não consiste apenas no uso de reflexões. A metodologia consiste na utilização de reflexões, reforços positivos, resumos e perguntas abertas em uma relação de no mínimo 2:1, ou seja, a utilização de cada duas estratégias para cada pergunta, com preferência das reflexões Nesta relação, para cada vez que o profissional escolher fazer uma pergunta aberta, as outras duas estratégias deverão ser, preferencialmente, qualquer das outras disponíveis. Neste contexto, as perguntas são utilizadas em menor proporção porque espera-se que todas as estratégias possam gerar mais fala  no cliente de modo a criar a oportunidade de ouvir a si mesmo – muito mais do que ao profissional – de descobrir coisas por si mesmo e, ao final, perceber que é capaz de discernir, fazer escolhas, tomar decisões e agir. Mesmo com estas possibilidades de estratégias a serem utilizadas por parte do profissional, o protagonismo deve ser sempre do próprio cliente.

Veja a seguir o acrônimo de PARR (em inglês OARS):

P: perguntas abertas

A: afirmar – reforço positivo

R: refletir

R: resumo

+ Informar e Aconselhar

 

  1. Fazer Perguntas Abertas

Uma boa maneira de começar a terapia é fazer as perguntas de modo que encoraje o cliente a falar o máximo possível. As perguntas abertas são aquelas que não podem ser respondidas facilmente com uma palavra ou frase simples. Fazer perguntas abertas é um convite ao cliente para que ele possa refletir e elaborar, uma vez que, para a EM, não é a resposta para aquilo que o profissional quer saber, que é o mais importante. Alguns clientes falam com muita facilidade.

Na EM não é recomendado o uso em demasia de perguntas, principalmente de forma consecutiva. A ideia central é sempre fazer uma pergunta para cada duas outras estratégias, de preferência com o uso de reflexões.

  1. Refletir

Trata-se da principal estratégia na EM e deve constituir uma proporção substancial durante a fase inicial da EM, principalmente entre os clientes resistentes.

Ao refletir, o profissional se coloca na relação, mas ao mesmo tempo, deve ser fiel ao que o cliente disse. Por este motivo, a EM não trabalha com interpretação. As relações com o cliente são autênticas e deve permitir que ele exprima abertamente seus sentimentos e atitudes sobre o seu comportamento e o processo mudança. Oferecer uma escuta reflexiva requer treinamento e prática para pensar reflexivamente. O processo de escuta ativa requer: Atenção cuidadosa ao que o cliente diz; Visualização clara do que foi dito; Formulação da hipótese concernente ao problema, sem suposições ou interpretações; Articular a hipótese por meio de uma abordagem não defensiva.

A ideia é que a fala do profissional não sofra interferência deste, em termos dos seus valores, suposições, personalidade, crenças, entre outros aspectos. Tal postura na realização de uma escuta reflexiva não impede que o profissional possa- experimentar uma atitude calorosa, positiva e de aceitação para com seu cliente, desde que o profissional deixe claro que aquela é a impressão, visão, ou compreensão dele acerca do cliente ao realizar uma reflexão. O profissional coloca-se na relação, mas quando realiza a escuta reflexiva deve ser fiel ao que o cliente disse. A escuta reflexiva não consiste em um processo de análise, mas no acompanhamento interessado sobre aquilo que a pessoa está dizendo. O profissional experiente à escuta reflexiva, consegue decodificar o sentido dos elementos que estão sendo apresentados, o que não significa que ele irá fazer interpretações ou suposições. O cliente que experimenta a escuta reflexiva feita por profissional qualificado e experiente, além de se sentir acolhido e aceito, tem a oportunidade de perceber com mais clareza o que está fazendo com a própria vida. Assim, espera-se que, a partir desta nova percepção, o cliente tenha reais condições de experimentar outro estágio motivacional no tratamento ou, pelo menos, não retroceda do ponto em que está.

Oferecer uma escuta reflexiva requer treinamento e prática para pensar reflexivamente, o que inclui dar conta de que aquilo em que você acredita ou supõe que as pessoas queiram dizer nem sempre é o que elas realmente querem dizer.

  1. Afirmar – Reforço Positivo

O reforço positivo também tem seu lugar no tratamento, sendo isso uma das peculiaridades na EM. Pode ser realizado através de apoio e oferecimento de apreciação e compreensão por parte do profissional. É importante ter em mente a ideia de reconhecer comportamentos, situações ou pensamentos que ocorram na relação terapêutica ou que o profissional tenha evidências concretas de sua existência, pois, caso contrário, o reforço positivo pode funcionar como uma barreira para escutar o cliente se não for verdadeiro.

O reforço positivo é uma forma de apoio autêntico, de incentivo e de verdadeiro reconhecimento daquilo que há de valor em cada ser humano – e não de oferecer um mero elogio. Trata-se, segundo Rogers, de uma manifestação de amor do profissional para o cliente que não se revela na perspectiva do romantismo ou da possessão e sim, no amor desinteressado, altruísta, que se interessa pelos outros, paciente, benigno e que não procura os seus próprios interesses.

 

  1. Resumo

Resumos podem ser utilizados para conectar os assuntos que foram discutidos, demonstrando que você escutou o cliente, além de funcionarem como estratégia didática para que o cliente possa organizar suas ideias. Em um atendimento onde há a construção de uma aliança terapêutica e o cliente se sente seguro e à vontade para promover “uma tempestade de ideias”, nem sempre ele consegue alcançar a dimensão de tudo aquilo que ele próprio disse. Estas conexões não precisam se dar exclusivamente com os assuntos do mesmo atendimento; ao contrário, o profissional tem liberdade, quando ver esta necessidade, de resumir um processo, não somente uma fala, permitindo ao cliente a oportunidade de perceber que de fato há um interesse e um acompanhamento por parte do profissional. O cliente pode ver que o profissional “não se esquece das coisas que ele disse”. Podem ser especialmente úteis para a ambivalência, permitindo ao cliente examinar os pontos positivos e negativos simultaneamente.

Os resumos podem ainda oferecerem links entre os conteúdos presentes e aqueles que foram discutidos anteriormente. Na EM, os resumos podem ser utilizados em vários momentos da sessão, ou seja, quando o cliente colocou várias ideias simultaneamente e o profissional tenta conectá-las e refleti-las ao cliente para sua melhor compreensão, além de funcionar como forte indício para o cliente de que está sendo ouvido atentamente pelo profissional e este fato per se gera menor resistência.

 

  1. Informar e Aconselhar

A EM entende que o manejo de clientes ambivalentes no auxílio ao movimento para a mudança é bastante particular e por este motivo, requer intervenções específicas. Neste contexto, percebe-se como errônea a crença de que o profissional não pode aconselhar ou fornecer informações aos clientes. Os clientes ambivalentes em uma abordagem completamente não diretiva podem se sentir confusos ou inseguros. Por este motivo, a EM encoraja os profissionais a fornecerem informações e conselhos, principalmente quando os clientes pedirem, desde que estas sejam importantes e complementares ao processo de construção e descoberta deles. No entanto, há de se ter cautela para não enveredar para o caminho de persuadir o cliente. A informação e o aconselhamento (sempre com permissão) deve funcionar como um dos ingredientes para a mudança.

 

Referência: Miller, W. R.; Rollnick, S. Motivational Interview – helping people change. 3. ed. New York: The Guilford Press, 2013.