A escolha é sua: e quanto à maconha? Diário ajuda os clientes a reavaliar seu uso

E a maconha? É uma questão na mente de usuários e profissionais. Em um extremo está a ideia de que a cannabis é uma droga inofensiva, muito menos perigosa do que o tabaco ou o álcool. No outro extremo está uma perspectiva de tolerância zero – nenhum uso de qualquer droga psicoativa é aceitável. Muitas pessoas estão em algum lugar no meio destes dois polos.

As atitudes públicas sobre a maconha estão mudando rapidamente. À medida que alguns países legalizam o uso médico ou recreativo, as opiniões sobre a cannabis se tornam mais semelhantes às do álcool e do tabaco.

Então, o que dizemos aos nossos clientes? Essa é a pergunta que o Dr Miller e colegas tinham em mente ao desenvolver o Diário Interativo E sobre a maconha? como um recurso clínico. Este material não é uma ferramenta de prevenção universal, mas foi elaborado especificamente para ser ministrado a usuários que  estejam usando cannabis , muitas vezes em combinação com outras drogas. Pode ser usado como uma intervenção independente ou discutido como parte do aconselhamento individual ou grupal.

Este diário interativo foi desenvolvido a partir de uma perspectiva de entrevista motivacional, convidando os clientes a dar uma olhada honesta em seu próprio uso de maconha e a tomar suas próprias decisões. Na verdade, essa liberdade de escolha não pode ser retirada. Dizer às pessoas “você não pode” é tão ineficaz quanto punição ou táticas de intimidação. É melhor dizer a verdade e reconhecer que as pessoas vão decidir por si mesmas.

Então, qual é a verdade sobre a maconha? Há um grande e crescente corpo de literatura de pesquisa que, sem surpresa, oferece resultados mistos. Este diário oferece uma avaliação justa e ajuda os clientes a pesar suas próprias motivações atuais para o uso em comparação com os potenciais riscos. Contém uma autoavaliação com feedback individual, sendo que os clientes podem comparar sua própria experiência com os critérios diagnósticos do transtorno por uso de substâncias. Tem uma seção de riscos potenciais baseada em evidências cientificas, sobre os efeitos do uso de maconha na saúde física, cérebro, sono, direção de veículos de transporte, relacionamentos, motivação e saúde mental. 

Em uma seção final, os leitores que avaliam sua importância e confiança para a mudança, oferecendo um menu de estratégias de automudança para escolha. Os leitores são convidados a considerar os efeitos positivos que esperavam experimentar com a maconha – e a explorar caminhos livres de drogas ou “novos caminhos” como alternativas.

No final das contas, as escolhas dos clientes são deles. Este diário é um recurso honesto para a ciência, construído em um método clínico baseado em evidências para ajudar as pessoas a fazerem escolhas saudáveis.

Aplicação Clínica da Entrevista Motivacional nos Transtornos de Ansiedade

O reconhecimento por parte do profissional e a integração da ambivalência para mudança de um comportamento (alguém quer mudar, mas, ao mesmo tempo resiste à mudança) como normal, pode ajudar o cliente a superar esse dilema. Criar espaço para escutar, preparar, validar integrar e até mesmo honrar esse dilema para a pessoa pode ser crucial na resolução da ambivalência. Clientes (mesmo aqueles com múltiplas experiências de tratamento fracassadas) costumam entrar no tratamento sendo zelosos em relação as razões para mudar. Entretanto, se o esforço para mudar for repetidamente impedido ou se houver uma história de conflitos envolvida com o tratamento, tais articulações podem capturar apenas parcialmente as visões mais complexas do cliente acerca da mudança.
A balança decisória é uma das estratégias que guia o trabalho do entrevistador motivacional com a ambivalência. Em nossa prática, convidamos o cliente desenhar uma linha no meio de uma folha de papel para capturar ambos os 2 lados da ambivalência (prós e contras da mudança versus os pros e contras do status quo) e propomos que os profissionais comecem com argumentos para “não mudar”. Em nossa experiencia, muitos clínicos podem articular as “boas razões para mudar” (por exemplo: “Sei que essa ansiedade não tem sentido! Está me deixando deprimido e destruindo minha vida por ser tão evitável! Estou perdendo tantas coisas que quero ter”]. Afirmamos que se esse tipo de “conversa de mudança” fosse suficiente para que os clientes progredissem, eles já teriam feito isso. Existem necessidades importantes e poderosas impulsionando a resistência do cliente, as quais precisam ser escutadas e acompanhadas (por exemplo, necessidade de controle, previsibilidade, segurança, liberdade das consequências negativas como rejeição, etc.). Além disso, quando as barreiras para mudar são empaticamente exploradas, as razões para mudar emergem de maneira natural e espontânea nas verbalizações do cliente.
Os clientes são, muitas vezes, repentinos em mudar para aquilo que parece mais aceitável ou para o que acreditam que os outros (incluindo os profissionais) querem ouvir, sem apreciar completamente os contra-argumentos dessa posição que emergem quando os indivíduos partem para implementar a mudança. Em nossa experiência, os clientes costumam apreciar essa perspectiva mais equilibrada, uma vez que a maioria das pessoas já sabe que precisa mudar e pode até ter ideias especificas do que é necessário para isso.
A ideia básica na elaboração dos prós do status quo é genuinamente escutar e confirmar os aspectos funcionais do “problema”. Os primeiros veículos para explorar essas funções são a empatia e a validação. É importante que o profissional cultive uma visão não pejorativa da resistência para mudar. Muitas vezes, as pessoas não conseguem avaliar que estão apenas fazendo o que faz mais sentido, dadas as suas perspectivas de seus problemas.
O objetivo é ajudar o cliente a escutar e avaliar os motivos positivos que estão por trás de seus problemas aparentemente sem sentido. Uma das utilidades da entrevista motivacional, então pode ser validar que as finalidades são altamente desejáveis e básicas para as necessidades humanas. O problema é a forma pela qual eles aprenderam a chegar nessas finalidades (ou quando esses meios não mais funcionam). Como observa Mahoney (2003) a cada problema atual, surge uma solução para o problema anterior. Essencialmente, o objetivo da exploração é ajudar a pessoa a entender que sua hesitação sobre a mudança faz sentido quando vista de sua perspectiva. O objetivo é também gerar uma maior autocompaixão. Quando o profissional está aberto para a visão de valor nos aspectos rejeitados do self e, empaticamente, ressoa as necessidades e os desejos básicos, modela uma abordagem de compaixão que é permissiva e aberta, não de autocritica e desdenhosa.
Em termos de conteúdo, a pessoa é incitada a considerar não apenas a “utilidade” de continuar na mesma situação, mas também a liberdade do custo da mudança. Por exemplo, indivíduos com fobia social podem estar muito relutantes em se expor socialmente, como comer em restaurantes muito cheios ou em um encontro, por medo de falhar, o que pode fazer com que se sintam mais desamparados.
Uma das vantagens da entrevista motivacional é que ela incentiva o cliente – e não o profissional – a articular os motivos para mudar. Ao explorar a balança decisória, o profissional ajuda o cliente a articular e elaborar os pros e contras da ansiedade, bem como os benefícios da mudança. A melhor forma para isso é o indivíduo começar a articular a “conversa de mudança” por meio da exploração e elaboração do cliente quanto aos argumentos para mudança, abordando as desvantagens da ansiedade/evitação e as possíveis vantagens da mudança. Aumentar a conversa de mudança (ou falar em direção à mudança) é a meta da entrevista motivacional nos transtornos de ansiedade.
Referência:
Entrevista Motivacional no Tratamento de Problemas Psicológicos. Hal Arkowitz; Henny A. Westra; William Miller; Stephen Rollnick. São Paulo: Roca, 2011.