Aplicações Clínicas da Entrevista Motivacional nas Prisões

Em 2003, uma intervenção de entrevista motivacional foi introduzida em um sistema prisional sueco. Um folheto foi distribuído, convidando os encarcerados a participarem do programa e a conversarem, confidencialmente, com um profissional. O folheto assegurou aos clientes que não existiam respostas certas ou erradas, que nada seria forçado e que o programa se destinava a ajudar os terapeutas a entender como os prisioneiros pensavam sobre o seu futuro. Hoje, a maior parte dos encaminhamentos ao programa é feita pelos próprios encarcerados e existe até uma lista de espera. O número de clientes que completaram o programa saltou de 175 em 2003, para 1.011 em 2006, tornando a entrevista motivacional a intervenção mais proferida no sistema correcional da Suécia.
 
O manual, intitulado Beteende-Samtal-Förändring (BSF. traduzido como Comportamento-Conversa-Mudança, Farbring e Berge. 2003), descreve uma intervenção de entrevista motivacional de cinco sessões semiestruturadas focando o uso de substâncias e no comportamento criminal. As cinco sessões seguem a sequência do modelo de estágios de mudança de Prochaska e DiClemente (1982). Apresenta-se uma taxonomia padronizada para a conversa de mudança, com base no manual de Amrhein (2000).
 
Antes da intervenção em si, o profissional se encontrou com os clientes para apresentar o conceito de mudança e o modelo transteórico, bem como o preenchimento das  escalas SOCRATES e URICA. O cliente foi assegurado sobre o sigilo e também estimulado a escolher, graficamente, seu estágio de mudança, considerando um problema por ele mesmo escolhido . A posição foi avaliada em graus a partir de zero e  usada em comparação com sua posição escolhida após a quinta sessão do programa de entrevista motivacional. O cliente recebeu um livro contendo todos os exercícios da intervenção.
 
A primeira sessão consiste em propiciar feedback ao cliente, com base no encontro introdutório. Os tópicos abordados incluiam como a mudança pode aparecer para o cliente, como seus amigos fizeram mudanças, etc. O cliente é incentivado a examinar os diferentes estágios da mudança em relação às diferentes áreas problemáticas.
 
Na segunda sessão, o profissional e o  cliente exploram os aspectos positivos e negativos de manter um comportamento específico. O objetivo explícito é o de encorajar o cliente a ver o lado positivo de mudar e evocar a conversa de mudança. No exercício de “campo de força”,  o cliente é estimulado a designar valores emocionais e argumentos prós e contras ao estado atual. Aqui, o profissional deliberamente evita refletir sobre argumentos prós ao estado atual e evoca aqueles com intenção de mudança. Outros exercícios incluem escalas de disposição de importância, confiança, prioridades e motivação interna e externa sobre fazer a mudança. Nesse exercício, solicita se que os clientes coloquem 10 pesos de 1kg em ambos os lados, descrevendo as motivações internas e externas (por exemplo, pressão familiar) para mudança. Esses exercícios são também repetidos como pós-testes.
 
A terceira sessão apresenta Baralho de Calores Pessoais (Miller C’de Baca Matthews Values Card Sort e Wilbourne, 2001 – temos a versão adaptada ao português https://www.artesaeditora.com.br/livro-valores-pessoais-9786586140491,fig037.html). O cliente deve registrar seus valores mais importantes no livro de exercícios e explorar as discrepâncias entre esses valores e seu comportamento pessoal atual, a fim de evocar a conversa de mudança. O exercício foca o lado emocional das diferenças entre o estado atual e as alternativas de mudança. Esse exercício recorre às emoções – consideradas o motor,  sem o qual a mudança não tende a ocorrer. “John, quando você roubava seus pais para comprar crack, como isso afetou seu relacionamento com as pessoas que ama? O que disseram e como se sentem com isso?”. Como muitos já disseram, não existiriam fumantes no mundo se apenas a compreensão racional fosse suficiente para mudar o comportamento.
 
A quarta sessão se refere à balança decisória da segunda sessão e estabelece conexões com  um mapa de rede social e uma reconstrução dos comentários negativos dos membros da família sobre seu estilo de vida. A rede social do cliente é uma causa primária de recaída. A maioria dos clientes em sistemas correcionais precisa promover mudanças em relacionamentos a fim de eliminar ou diminuir as associações antissociais.
 
A quinta sessão elicia os pontos fortes e as qualidades pessoais do cliente. Erros anteriores podem ter desgastado a autoeficácia. O cliente é ensinado a planejar novamente o que considerou como sendo fracasso. O exercício consiste no cliente registrar todas as qualidades e recursos que possui. O quinto encontro deve resultar em uma anotação positiva acerca da conversa de mudança. Por isso, existe uma opção entre criar um plano de mudança a curto prazo e um exercício no qual o cliente é convidado a imaginar o futuro. Se o cliente não estiver disposto a fazer um plano concreto, a mudança pode ser mais aceitável na forma hipotética. “Sei que você não se sente bem com isso agora, mas se tivesse de dar alguns passos em direção à mudança, o que seria mais adequado para você?” (Farbring, 2003). O planejamento “e se” pode preparar o terreno para uma nova estruturação cognitiva. O encontro termina com o preenchimento dos pós-testes e do formulário de avaliação. Por fim, pergunta-se ao cliente se ele está interessado em uma sessão de seguimento em alguns meses.
 
Referência:
Entrevista Motivacional no Tratamento de Problemas Psicológicos. Hal Arkowitz; Henny A. Westra; William  Miller; Stephen Rollnick. São Paulo: Roca, 2011.