Motivar os residentes a mudar a comunicação: o papel de uma aula breve sobre Entrevista Motivacional.

 

 

Lisa Renee Miller-Matero, Erin T. Tobin, Elizabeth Fleagle, Joseph P. Coleman and Anupama Nair

 

A Entrevista Motivacional (EM) é uma abordagem centrada na pessoa que incentiva pacientes para mudar comportamentos. Os programas de treinamento em EM aumentaram o conhecimento dos residentes e uso de habilidades de EM. No entanto, muitos programas de residência podem não ter tempo suficiente para o ensino da EM. O objetivo deste estudo foi avaliar os benefícios de uma aula de EM breve aos residentes em uma clínica médica acadêmica de medicina.

Métodos: Trinta e dois residentes concluíram um treinamento de 1 hora sobre EM entre outubro de 016 e junho 2017 e completaram uma avaliação sobre seu conhecimento e confiança na utilização de EM  antes do treinamento, imediatamente após e em um mês de seguimento.

Resultados: O conhecimento e a confiança dos residentes usando as habilidades de EM aumentou desde o pré-teste, pós-teste e no seguimento de 1 mês.

Conclusão: A utilização das habilidades em EM aumentou do pré-teste até o seguimento de 1 mês. Uma aula de 1 h oferece benefícios aos residentes.

Referência:

 

Miller-Matero LR, Tobin ET, Fleagle E, Coleman JP, Nair A. (2019) Motivating residents to change communication: the role of a brief motivational interviewing didactic. Primary Health Care Research & Development 20(e124): 1–4. doi: 10.1017/S146342361900015X

 

Confira o artigo na integra:

https://www.cambridge.org/core/services/aop-cambridge-core/content/view/70ED8B205ED96A9C4E7757196B1E2CCE/S146342361900015Xa.pdf/motivating_residents_to_change_communication_the_role_of_a_brief_motivational_interviewing_didactic.pdf

O Espirito da Entrevista Motivacional

A fim de facilitar ainda mais a compreensão da Entrevista Motivacional , Miller e Rollnick elaboram o “Espírito da EM”, que envolve um estilo colaborativo, evocativo e com respeito à autonomia do cliente, a destacar: Parceria ; Aceitação; Evocação e Compaixão.
1. Parceria:

A EM é feita “com” e não “para” a pessoa. Trata-se de um elemento que reforça a necessidade do terapeuta interagir e se interessar pela história e evolução do cliente e não se ater a uma conduta prescritiva. Nesta perspectiva, a EM convida o profissional a construir em seu trabalho uma postura equilibrada na tensão entre seguir o indivíduo e também, guiá-lo. O profissional e o cliente procuram saídas juntos.

2. Aceitação:
Para a compreensão da EM, a aceitação tem forte influência nas obras de Carl Rogers e propõe que o profissional se interesse e valorize o potencial de cada indivíduo. Aceitar a pessoa não significa necessariamente que o profissional aprova ou endossa o status quo ou as ações do cliente, ou seja, se o profissional aprova ou reprova é irrelevante. A aceitação consiste no reconhecimento do valor absoluto que o cliente dá aos seus argumentos e razões, na empatia acurada, no suporte à autonomia do cliente e no reforçamento positivo de falas, e posturas em prol da saúde e integridade de vida do cliente.

Não cabe ao profissional o julgamento, tampouco a imposição ou influência de suas próprias ideias. O julgamento, bem como outras abordagens, faz com que o profissional não escute o cliente e sim, a si mesmo (aos seus próprios valores, percepções do que seja certo ou errado, melhor ou pior para o outro, suposições e/ou interpretações). Este processo faz com que o profissional atue com uma intervenção prescritiva. A proposta da EM é que, no final das contas, o cliente escute a si mesmo e se dê conta de suas motivações e ambivalências, assumindo uma decisão perante seu comportamento de risco.

Para que o processo de aceitação se fortaleça, os autores sugerem ainda a necessidade de fortalecer o apoio à autonomia, na medida em que o profissional respeita a autonomia do cliente e reconhece sua capacidade de direcionar a própria vida. Para alguns profissionais este movimento pode ser difícil de ser feito, quando o cliente pode fazer escolhas e tomar atitudes que, na visão do profissional, não corresponderia ao que haveria de melhor para o seu cliente. Mesmo motivado por boas intenções, agindo desta forma o profissional corre o risco de induzir, coagir ou controlar o cliente, desconstruindo assim, o processo de aceitação.

Finalmente, para a EM a aceitação se completa quando há o movimento de afirmação pelo profissional, quando este busca reconhecer os pontos fortes da pessoa e reforçá-los de forma positiva.

3. Evocação:
Evocar as forças que motivam a pessoa, ao invés de persuadir. Evocar quer dizer lembrar, recordar. Motivação vem de motivo, que quer dizer aquilo que pode fazer mover, motor que causa ou determina alguma coisa. A motivação é um recurso interno. A evocação traz a proposta de ajudar o cliente a se recordar de elementos próprios e únicos que podem se tornar motivos para que haja uma mudança de comportamento.

A mensagem implícita é “Você tem o que você precisa para a mudança e juntos, iremos encontrá-la”. Dentro dessa perspectiva é particularmente importante focar na compreensão das forças da pessoa e em seus recursos invés de focar em seus déficits.

4. Compaixão:
O conceito de compaixão, para a EM, não está em um sentimento pessoal que o profissional deve desenvolver pelo seu cliente. Para os autores, o profissional compassivo é aquele que promove ativamente o bem-estar do outro, colocando-o como prioridade antes dele próprio. Na contemporaneidade, nos mais diferentes segmentos e tipos de serviços, o profissional compassivo é identificado como aquele que não no cliente mais um número, mais um caso ou mais uma fonte de renda: vê no cliente uma pessoa única, prioritária e cheia de possibilidades. O alvo final de cada encontro é o cliente e não deve ser endereçado em momento algum para a satisfação dos próprios interesses do profissional.

A compaixão pode ser compreendida como um meio de tentar fazer o profissional se aproximar mais verdadeiramente da pessoa e não do problema dela. Uma vez que o profissional consegue ter acesso à unicidade de cada um, torna-se possível uma melhor compreensão das complexidades individuais que dificultam as mudanças de comportamento. É um ato de aproximar-se para verdadeiramente ajudar. Os autores reforçam o convite para “colocar a mão na massa” JUNTO com a pessoa e não PELA pessoa. Por isso eles também propõem a parceria.

Referência: MILLER, W. R.; ROLLNICK, S. Motivational Interview – helping people change. 3. ed. New York: The Guilford Press, 2013.