QUÃO EFICAZ É A ENTREVISTA MOTIVACIONAL?

Como, para quê e para quem funciona a entrevista motivacional? Ao longo de quatro décadas inúmeras pesquisas acumularam-se para responder essas questões. Essa literatura pode ser resumida em três partes:

1. A eficácia da entrevista motivacional em ensaios clínicos.

2. A eficácia relativa da entrevista motivacional quando comparada a outras abordagens.

3. Estudos sobre eficácia clínica – quanto o método mantém-se em práticas comunitárias, fora das condições controladas da pesquisa clínica.

O site da entrevista motivacional inclui uma bibliografia cumulativa dessa literatura no link https://motivationalinterviewing.org/sites/default/files/mi_controlled_trials_2020_nov.pdf

VALE A PENA LER ! ASPECTOS COMPORTAMENTAIS,NEUROBIOLÓGICOS E PSICOSSOCIAIS DO USO E DEPENDÊNCIA DE DROGAS

Autores: Andrade, ALM; De Micheli, D; Silva, EA; Lopes, FM; Pinheiro, BO; Reichert.

Editora CRV, 2021

Este livro tem como objetivo principal respaldar profissionais e estudantes de diversas áreas do conhecimento com os principais temas no que se refere ao binômio droga e comportamento humano. Trata-se de uma obra de relevância acadêmico-cientifica, tanto para profissionais da área clínica, da área acadêmica e o público em geral uma vez que contempla as diferentes esferas e dimensões relacionadas ao uso de substâncias, desde o histórico do consumo (visão histórico-antropológica), passando pela farmacologia, aspectos neurobiológicos, psicológicos e sociais, finalizando com as políticas públicas sobre o tema. 

Neliana B. Figlie e Janaina Turisco escreveram Entrevista Motivacional no Tratamento de Dependentes de Substâncias: fundamentos clínicos para o aumento da adesão.

As autoras mostram que a Entrevista Motivacional é uma abordagem que possui uma base teórica e não é meramente um conjunto de técnicas. Trata-se de uma abordagem de aconselhamento com uma metodologia prática e objetiva, que pode ser conduzida por qualquer profissional, desde que capacitado para tal. Diante disto, por meio de testes e adaptações com rigor científico, a Entrevista Motivacional almeja, além da mudança no comportamento, agregar uma visão humanista e construtivista nas modificações de comportamentos de risco.

Confira!!

https://www.editoracrv.com.br/produtos/detalhes/36159-aspectos-comportamentais-neurobiologicos-e-psicossociais-do-uso-e-dependencia-de-drogas

Relação da entrevista motivacional com outras psicoterapias

A entrevista motivacional é uma forma de estar com as pessoas e não é outra “escola” de psicoterapia. No entanto, assim como em outros tipos de psicoterapia, o objetivo é facilitar a mudança terapêutica.

Embora a entrevista motivacional seja fortemente enraizada na terapia centrado no cliente de Carl Rogers, ela também compartilha semelhanças com outras abordagens. A entrevista motivacional e as terapias psicanalíticas consideram a ambivalência e a resistência fontes de informações significativas que podem ser usadas produtivamente na terapia. Contudo, elas são bastantes distintas quanto aos tipos de informações que consideram importantes e à maneira como trabalham a ambivalência.

Nas teorias psicanalíticas, a ambivalência costuma ser concebida como um conflito, em geral inconsciente, entre partes da personalidade. Em uma compreensão psicodinâmica, a ambivalência proporciona informações sobre conflitos reprimidos que são transportados do passado, bem como ameaças a uma autoimagem estável, crenças patogênicas, medo da mudança e ganhos secundários. Diferentemente, a entrevista motivacional está muito mais no aqui e agora, sem um ponto de vista anterior sobre os porquês da resistência e a ambivalência. A ambivalência e a resistência não são vistas como patológicas. Em entrevista motivacional, o importante é entender a perspectiva do cliente quanto aos prós e contras da mudança.

Na terapia cognitivo-comportamental, a resistência e a ambivalência não são apresentadas com um status em especial. Entretanto, alguns terapeutas comportamentais, como Patterson e Forgatch,  atribuíram a resistência a uma conceituação cognitiva disfuncional. Exemplo: quando um cliente depressivo não faz as tarefas de casa, terapeutas cognitivos buscam crenças e esquemas que possam estar causando tal resistência, como pessimismo, vulnerabilidade, entre outros. Em contraste com a entrevista motivacional, a terapia cognitivo-comportamental é uma abordagem razoavelmente didática que enfatiza a educação dos clientes para novos comportamentos e maneiras de corrigir crenças disfuncionais. O terapeuta cognitivo-comportamental é considerado um perito que pode orientar o cliente a facilitar a mudança.

A entrevista motivacional envolve mais parceria do que uma relação, com  o potencial de intensificar a eficácia de outras terapias. Estratégias da terapia cognitivo-comportamental (como estruturar as atividades entre as sessões) e das terapias (como apresentar interpretações), podem ser conduzidas no contexto de uma postura relacional que é mais coerente com a entrevista motivacional do que uma postura direcionada por um especialista. Potencialmente, usando o estilo da entrevista motivacional, pode se reduzir a resistência e a defesa e estimular gatilhos internos para a mudança,  intensificando dessa forma os resultados de outras terapias.

Referência:

Entrevista Motivacional no Tratamento de Problemas Psicológicos. Hal Arkowitz; Henny A. Westra; William  Miller; Stephen Rollnick. São Paulo: Roca, 2011.

POTENCIALIZANDO A REDUÇÃO DE RISCOS: AUMENTANDO A RESPONSIVIDADE COM A ENTREVISTA MOTIVACIONAL

O modelo Risco-Necessidade-Responsividade (RNR) fornece uma abordagem empiricamente validada para reduzir riscos e redução de reincidências. Por meio de estudos ao longo do tempo, os dois primeiros princípios de Risco e Necessidade foram bem desenvolvidos e expandidos. O terceiro princípio fundamental da Responsividade tem sido esquecido e ficou para trás, embora atue com o envolvimento do ofensor e motivação.
A boa notícia para o tratamento correcional é que o foco no princípio de responsividade tem aumentado e se expandido. Compreender o valor do envolvimento e da motivação do infrator gerou uma expansão da responsividade. Numerosos estudos têm evidenciado que as reduções na reincidência vêm da combinação de controle e aliança para estabelecer uma abordagem sintética ou híbrida, com a participação da equipe de supervisão que recebe o nome de “dupla relação.”
Este artigo irá apontar as recomendações dos autores do modelo RNR para com o uso da Entrevista Motivacional (EM) em ambientes correcionais. A EM atesta uma capacidade de aumentar a prontidão do infrator para mudança, oferecendo métodos de prática direta no estabelecimento de ¨dupla relação¨. A abordagem da EM evoca  o princípio de responsividade, que levou  a denominação de um “ajuste natural” para correções da comunidade. Neste artigo, os vários benefícios que a EM oferece ao processo de reabilitação são detalhados.
 
 
Referência: Michael D. Clark. EMPOWERING RISK REDUCTION: INCREASING RESPONSIVITY WITH MOTIVATIONAL INTERVIEWING. Advancing Corrections Journal: Edition #10-2020. www.icpa.org
 
 
Confira o Artigo na integra !

COMO FAZER A ENTEVISTA MOTIVACIONAL NA PRÁTICA

Exemplo: Em uma escala de 0 a 10, com 0 não sendo sem importância e 10 muito importante, quanto você deseja [parar de fumar / parar de beber / mudar de emprego/ iniciar atividade física, etc] hoje?

O esperado seria tentar trabalhar o aumento do compromisso com a mudança ou habilidades para mudar . No entanto, este tipo de postura pode dar origem ao que denominamos de falas de permanecia ou sustentação porque  mantém as pessoas focadas em todos os motivos pelos quais não mudam ou não podem mudar, em vez de evocar os motivos pelos quais desejam mudar.

Então, o que a Entrevista Motivacional sugere?

Pergunte ao seu cliente por que seu desejo não é menor.

Você diz que seu compromisso com a mudança é um 4. Por que não é um  0 ou 1?

É uma mudança simples, mas o efeito é altamente profundo. De repente, em vez de insistir em todas as coisas que dificultam a mudança, o cliente se lembrará e expressará as razões pelas quais deseja mudar, e com isso, ele se torna um defensor da mudança e não o profissional.

Pensando em fazer uma mudança em sua vida? Este baralho irá ajudá-lo a identificar e pensar sobre as questões importantes para você hoje.




O Baralho de Valores Pessoais foi criado em 2001 por William R. Miller, Janet C’de Baca, Daniel B. Matthews e Paula L. Wilbourn, com o objetivo de incentivar a exploração de valores pessoais de modo a eliciar a fala de mudança, que é precursora da modificação de comportamentos, segundo o referencial da Entrevista Motivacional.

Em 2011, foi atualizado para incluir mais valores até a versão atual. Vale destacar que a versão aqui disponibilizada foi adaptada a realidade brasileira por Neliana Buzi Figlie, além de contar com os feedbacks obtidos por parte de profissionais brasileiros que realizaram o Treinamento em Entrevista Motivacional.

Tem como objetivo classificar 100 valores em grau de importância de modo a incentivar a exploração de valores pessoais. Uma vez que os valores foram classificados e priorizados, segue um questionamento reflexivo por meio de perguntas que podem ser em formato escrito ou verbal, com vistas a aprofundar a conexão de valores para qualquer crescimento individual ou profissional.

Veja alguns exemplos:

  • Como que os valores que você escolheu se alinham com as suas escolhas de vida?
  • Como que os valores que você escolheu se alinham com as suas escolhas profissionais ou sua situação de tratamento – vida?
  • Se houver um desalinhamento de valores para as escolhas, que mudanças você poderia fazer para trazê-los de volta para o alinhamento?
  • Partilhar os seus valores com terceiros, facilita a explicação do seu significado pessoal de cada valor.

Referências: Miller, W. R.; Rollnick, S. Motivational Interview – helping people change. 3. ed. New York: The Guilford Press, 2013.

Figlie, NB. https://www.artesaeditora.com.br/livro-valores-pessoais-9786586140491,fig037.html

William R. Miller, Janet C’de Baca, Daniel B. Matthews, e Paula L. Wilbourn. Personal Values Cards, 2001 (1ª edição). Disponível em:  https://casaa.unm.edu/inst/Personal%20Values%20Card%20Sort.pdf

Health Behavior Change – A Guide for professionals

 

¨Health Behavior Change – A Guide for professionals¨

(Mudança de comportamento de saúde – um guia para profissionais)

Pip Mason & Christopher C. Butler

Idioma: Inglês     Ano: 2010 2ª edição

Escrito por especialistas de reputação mundial, Health Behavior Change apresenta um método emocionante que pode ser usado para ajudar os pacientes a mudar seus comportamentos nos ambientes hospitalares e comunitários. O método é aplicável a qualquer comportamento, como obesidade,  sedentarismo,  tabagismo, pacientes com doenças crônicas como diabetes e doença cardíaca. Usando intervenções breves e estruturadas, o profissional incentiva o paciente a se encarregar da tomada de decisões sobre sua saúde. Baseia-se na parceria entre profissional e paciente, em vez de dominação de um sobre o outro e é realizada em um espírito de Negociação, invés de confronto.

O texto descreve claramente os princípios fundamentais da ETM na prática. Problemas de resistência e falta de motivação são explorados e estratégias são sugeridas, com exemplos de casos e dilemas clínicos.

Aparência aprimorada com duas cores,  design moderno e resumos dos capítulos ajudam na  assimilação e compreensão.

Comparação de Entrevista Motivacional com Terapia de Aceitação e Compromisso: Uma revisão conceitual e clínica

 

Contexto: A Entrevista Motivacional (EM) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) são duas terapias emergentes que se concentram no compromisso com a mudança de comportamento.

Objetivo: Fornecer a primeira revisão sistemática da EM com a ACT.

MÉTODO: Foi realizada uma comparação sistemática da EM e ACT em nível conceitual, com foco em suas bases filosóficas e teóricas, e em nível clínico, com foco na relação terapêutica, uso da linguagem e uso de valores na terapia.

RESULTADOS: Conceitualmente, EMI e ACT têm bases filosóficas distintas. A base teórica da EM se concentra no conteúdo da linguagem, enquanto a base teórica do ACT se concentra na aceitação e  consequente experimentação de  pensamentos, sentimentos e sensações decorrentes dessa aceitação. Clinicamente, o ACT e a EM têm abordagens distintas para o relacionamento terapêutico, focos fundamentalmente diferentes na linguagem do cliente e diferentes usos dos valores do cliente para motivar a mudança de comportamento.

CONCLUSÕES: Apesar de suas diferenças conceituais e clínicas, a EM e a ACT são intervenções complementares. As colaborações entre os pesquisadores da EM e da ACT podem produzir uma um campo fértil para pesquisa sobre processos centrais e resultados clínicos.

Referência:

Bricker, J. & Tollison, S. (2011). Comparison of Motivational Interviewing with Acceptance and Commitment Therapy: A conceptual and clinical review. Behavioural and Cognitive Psychotherapy, 39, 541–559.

” Coaching Athletes to Be Their Best: Motivational Interviewing in Sports”

 

” Coaching Athletes to Be Their Best: Motivational Interviewing in Sports”

Stephen RollnickJonathan FaderJeff Breckon, and Theresa B. Moyers

Idioma: Inglês      Ano: 2019

Guilford Press

Para se mensurar um grande treinador é preciso avaliar se ele está extraindo o  melhor dos atletas. Este é o primeiro guia de Entrevista Motivacional (EM) dirigido para treinadores, psicólogos do esporte, especialistas em treinamento e reabilitação entre outros – uma abordagem que comprovadamente aproveita o poder da conversação para construir relacionamentos e auto confiança. O livro revela porque as formas convencionais de dar feedback e resolver conflitos geralmente são contraproducentes e apresenta métodos testados e aprovados para ajudar os atletas a prosperar. Os principais psicólogos do esporte e especialistas em MI – incluindo  Stephen Rollnick – fornecem estratégias eficazes para estimular a motivação, promover a apropriação de objetivos pessoais, resolver problemas de comportamento dentro e fora do campo, aprimorar o desempenho e melhorar o trabalho em equipe. Estão incluídos exemplos passo a passo e histórias inspiradoras de treinadores. Os compradores têm acesso a uma página da Web na qual podem baixar e imprimir as folhas de referência rápida reproduzíveis do livro sobre as principais habilidades de EM.

Aumento da Disseminação da Entrevista Motivacional

 

A entrevista motivacional (EM) é a única abordagem padronizada e baseada em evidências para facilitar a mudança de comportamento. A estrutura da EM inclui quatro etapas: 1.) Engajar o cliente; 2.) Focar em uma área de mudança de comportamento; 3.) Evocar motivação e comprometimento com a mudança; e 4.) Planejar as etapas para a mudança.

Para entender a EM é importante revisitar suas raízes. Antes da EM ser formalmente apresentada, seu fundador, Dr. William Miller, conduziu uma meta-análise sobre abordagens e resultados para o tratamento do alcoolismo (na meta-análise, os resultados de muitos estudos são sistematicamente combinados e comparados). Neste estudo, Miller ordenou tratamentos para problemas de álcool por resultado. Ele descobriu que abordagens de tratamento que eram ativas e empáticas eram mais eficazes, enquanto abordagens mais passivas, por exemplo, filmes, palestras e abordagens de confronto, eram menos eficazes. Curiosamente, o estudo constatou que as abordagens de 12 passos foram classificadas em  370 e a 380 lugares, respectivamente, dos 48 avaliados.

O momento eureca de Miller aconteceu durante um período sabático na Noruega, quando ele conversou com um grupo de jovens psicólogos sobre o tratamento comportamental de pacientes com problemas de álcool. Durante uma demonstração de sua abordagem de tratamento, ele foi convidado a descrever a maneira como conduzia sua intervenção de forma a propiciar que o cliente elaborasse seus objetivos e pensamentos. Miller percebeu que sua abordagem era marcadamente diferente das abordagens padrão de tratamento na época.

 

Em 1983, Miller publicou um artigo descrevendo essa nova e promissora abordagem para o tratamento de bebedores problemáticos. Então, em 1991, Miller se uniu ao Reino Unido (Reino Unido), com psicólogo clínico do Serviço Nacional de Saúde, Dr. Stephen Rollnick. Elaborando o trabalho inicial de Miller, os dois descreveram os fundamentos e métodos desta nova abordagem.

 

Disseminação rápida em 25 anos: Atualmente, a EM é usada em várias situações em todo o mundo, incluindo reabilitação de álcool e drogas, justiça e liberdade condicional, saúde comportamental, treinamento para pais e pré-natal – e, é claro, cuidados com a saúde. O uso da EM nos cuidados de saúde tem sido apoiado por dezenas de estudos que documentam seu valor para envolver e auxiliar pacientes com desafios difíceis no gerenciamento do estilo de vida e no autocuidado com doenças – que, assim como pacientes com problemas de abuso de substâncias, podem ter se acostumado a receber informações e censura sobre o seu comportamento pelas pessoas em suas vidas.

 

Embora a EM tenha sido particularmente popular entre os profissionais da área de saúde, há de se considerar leigos e profissionais – com ou sem treinamento formal – afetam os resultados da EM na adesão aos padrões de treinamento, avaliação e prática, que tem se mostrado inconsistentes. Neste contexto, a EM pode ser vista apenas como outra ferramenta (embora baseada em evidências) no kit de ferramentas de um profissional de saúde; como uma técnica que pode ser dominada após um workshop de treinamento de dois ou três dias;  ou um conjunto de habilidades inato para alguns profissionais (mitos que podem afetar diretamente o resultado nos estudos).

 

 

Em nível organizacional, o uso de treinamento que não se encaixam no MI ou na complexidade das habilidades envolvidas, geralmente não atendem às expectativas. De qualquer forma, a menor eficácia do treinamento (seja medida usando ferramentas objetivas e validadas) o impacto do treinamento ainda é  desconhecido. Várias organizações investiram em programas de desenvolvimento de treinamento de EM, trazendo profissionais associados ao Motivational Interviewing Network of Trainers (MINT) para formar parceria com a equipe clínica e na maioria dos casos, quando os resultados são medidos, os resultados são alcançados.

Em quase todas os estudos, a EM percorreu um longo caminho desde seu começo humilde, há mais de 25 anos, e você encontrará algumas descobertas e fatos mais interessantes sobre a EM  neste infográfico abaixo.

 

Referência:

https://healthsciences.org/Infographic-Motivational-Interviewing-Adds-Up

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